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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O SECTARISMO GOLPISTA

O sectarismo golpista
Uma ala da esquerda brasileira tornou-se funcional a ofensiva golpista a serviço do imperialismo
Publicado em 29 de setembro de 2016, última atualização 20 de setembro de 2022

Alguns partidos e organizações de esquerda adotaram posições políticas aventureiras que foram funcionais a campanha da direita pelo Golpe de Estado. Na vanguarda, que já se encontrava confundida e desmoralizada pela política de conciliação de classes do PT, a política desses agrupamentos serviu para dividir a resistência e fortalecer a ofensiva ideológica da direita, um caminho oposto ao da construção de uma alternativa proletária e revolucionária a falência do petismo.

A medida em que a ficha cai, a um alto custo para toda a vanguarda e para a nossa classe, a maior parte desse setor vai abandonando a posição original equivocada e migrando para a resistência. Todavia, uma fração cada vez mais minoritária tem se tornado ainda mais recalcitrante e segue ajudando nossos inimigos a imporem um Estado de exceção no Brasil, comemorando a vitória do Golpe, embelezando com uma fraseologia de esquerda os argumentos golpistas e a farsa do "combate a corrupção" e reivindicando, por exemplo, a prisão de Lula.

Mesmo entre os que se somaram a luta contra Temer e os golpistas tardiamente, depois que o impeachment foi aprovado, muitos ainda não reconhecem que existiu um Golpe de Estado no Brasil. Ninguém combate firmemente o que despreza ou subestima. E precisamos de muita força para derrotar o maior ataque aos trabalhadores de toda sua história. Combater essas posições divisionistas dentro da vanguarda em favor da unidade na ação da esquerda contra a ofensiva da direita é a função deste artigo. "Vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão", como diz a canção de Beto Guedes.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

IRAQUE

Frente Única Anti-imperialista contra
mais uma “revolução - made in CIA”
O levante do EIIL é mais um golpe para justificar a nova ofensiva imperialista e balcanizar o Iraque. Por milícias multiétnicas, sem divisões religiosas, de trabalhadores e povos oprimidos do Oriente Médio para expulsar o imperialismo e avançar a luta por governos Operários e Camponeses!

Declaração do COMITÊ DE LIGAÇÃO PELA IV INTERNACIONAL
(Liga Comunista/Brasil; Socialist Fight/ Grã Bretanha, Tendência Militante Bolchevique/Argentina) e do AEWAR KHAN (grupo de companheiros que rompeu com o CIT/CWI no Paquistão)
julho de 2014

GEOESTRATÉGIA DO IMPERIALISMO EM DECADÊNCIA

Sempre oculto, o principal objetivo das aventuras militares da Casa Branca, no Afeganistão e no Iraque, foi buscar superar a crise capitalista nos EUA combatendo a queda da taxa de lucro, buscando novas áreas de investimento para suas finanças domésticas e suas multinacionais, através da política de 'mudança de regime' (regime change) nas nações oprimidas, alimentando a máquina mortífera do MIC (Complexo Militar Industrial). [1]

sábado, 18 de maio de 2013

POLÊMICA - PT

O seguidismo das organizações
de esquerda ao PT

Documento elaborado por Erwin Wolf da Silva com contribuições de Humberto Rodrigues e Ismael Costa. Wolf é um ex-militante estudantil de Liberdade e Luta e da OSI (1977/80) e ex-Política estudantil Independente, da OQI (1980-90), organização que deu origem ao atual PCO.

Trabalhadores dos Correios em greve queimam bandeira do PT
A HISTORIA DA LUTA PELO PARTIDO
POLITICO DA CLASSE OPERÁRIA

O Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista (PCB), foram as duas tentativas mais importantes da classe operária brasileira de se estruturar politicamente enquanto classe, ou seja, construindo o seu próprio partido.

O Partido Comunista, fundado em 1922, teve sua trajetória influenciada pela Internacional Comunisadta da "coexistência pacífica com o imperialismo" e da "Teoria do Socialismo num só país", sob domínio de Stálin, ora alternando uma política oportunista de subordinação ao nacionalismo burguês, ora uma política esquerdista ("terceiro período"), quando promoveu as aventuras das quarteladas, a chamada "Intentona Comunista" de 1935, ações individuais isoladas, totalmente separadas das massas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ELEIÇÕES 2012, RITO DE PASSAGEM DO PSOL E PSTU 3/3


A coligação “da esquerda revolucionária” do PCO e PCB reivindica “políticas públicas” burguesas e os apêndices de esquerda do PSTU acompanham-no em seu giro oportunista

 

Vasconcelos Pinheiro, candidato a prefeito da frente PCB-PCO
O giro oportunista do PSTU, em uma coligação patrocinada pela burguesia e em unidade com o governo Dilma via PCdoB, confunde uma série de organizações que o criticam e atuam como seus satélites na vanguarda militante.

Primeiramente precisamos estabelecer como critério que embora as eleições deste ano sejam municipais, a orientação política que cumprem estes partidos é dada por suas direções nacionais. O que ocorre neste momento em Belém não é um “deslize regional do PSTU lá pelas bandas do Norte”. A política que o PSOL ou o PSTU estabelecem para Belém, Natal ou São Paulo corresponde ao usufruto do potencial que a política nacional destes partidos pode ter em nível regional. A política oportunista do PSTU em Belém antecipa uma política geral deste partido se forem dadas as mesmas possibilidades de eleger seus candidatos nas eleições burguesas em qualquer outra cidade.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

REVISANDO O REVISIONISMO II

A herança que nós renunciamos da
política Frente Populista do Partido Obrero
Informativo da CRCI chamando voto no MAS
boliviano, uma frente popular em forma de partido
Fustigados por uma correspondência de uma recente ruptura do Partido Obrero argentino, a Tendencia Piquetera Revolucionária (TPR), a qual reproduzimos logo abaixo, fomos levados, a LC e a TMB, a realizar um acerto de contas com nossa origem política na corrente internacional dirigida por Jorge Altamira. Tratava-se de uma tarefa até então pendente para a LC que nunca foi resolvida pelo PCO, LBI, POR ou POM, organizações brasileiras que tiveram sua origem no altamirismo e que não por acaso carregam hoje os vícios desta vertente do pseudo-trotskismo. Quando esboçaram algum balanço de sua matriz estes agrupamentos no máximo realizaram convenientemente críticas do momento de sua ruptura em diante, sob o auto-engano de que tudo era correto e principista até o momento em que foram levados a romper, recusando-se a combater pela raiz a tradição altamirista. Lamentavelmente os companheiros da TPR incorrem no mesmo equívoco. Romperam organicamente com o PO, mas seguem reivindicando o “altamirismo das origens”. Sob a mesma influência deformada encontram-se em menor ou maior grau o conjunto dos agrupamentos do CRCI que até o momento não firmaram um combate contra as concepções de “governo de toda a esquerda”, de apoio crítico ao MAS Boliviano e ao Syriza na Grécia, de formação de frentes populares “anti-austeridade”.
Qual a importância deste debate hoje? Simples. Primeiramente para disputar a consciência política dos militantes honestos que militaram ou militam na base das organizações influenciadas pelo PO, na Grécia (EEK), Itália (Partito Comunista dei Lavoratori), Venezuela (Opción Obrera), etc. e também porque a direção do PO renega  o combate trotskista contra a política de frentes populares em favor da estratégia conciliacionista de “frentes de esquerda” ao mesmo tempo em que rechaça a tática da frente única antiimperialista aderindo como papagaio ao ombro esquerdo da OTAN nas campanhas militares de re-colonização do Oriente Médio em favor das reacionárias contra-revoluções árabes na Líbia e na Síria e do aborto dos levantes populares nos demais países da região. Por tudo isto, este debate assume uma importância capital para aqueles que se reivindicam marxistas em nosso tempo e lutam por fundir o comunismo com o movimento operário ativo, para aqueles que acreditam que sem este combate não é possível assentar as bases programáticas para as táticas e estratégias revolucionárias para a atual etapa histórica.

terça-feira, 19 de julho de 2011

CORRESPONDÊNCIA 1

O critério do anti-imperialismo e o pablismo
Michel Pablo, liquidacionista do trotskismo
À Liga Comunista

Li com muita atenção a polêmica da LC com os demais partidos de esquerda a respeito da situação da Líbia. O combate da LC se dá em dois planos: primeiro contra os “revisionistas” que veem revoluções em todo lugar, revoluções essas sem direção, sem partido, etc. Considero que a FTLI é a mais extremada expressão desse campo. Chegou até a descrever a formação de sovietes de cabos e soldados na Líbia. O otimismo revolucionário é sadio, mas quando passa dos limites vira delírio. Agora que ficou clara a colaboração dos “rebeldes” com o imperialismo, faz contorcionismos téoricos para argumentar qua é a favor da “revolução”, mas contra a OTAN. Nesse plano eu concordo com a LC integralmente.
No segundo plano há a luta contra a posição da LBI (“pablista”, na minha opinião) que coloca o Kadafhi como um líder progressista e anti-imperialista, sem considerar que o líder “terceiro-mundista” nos últimos anos tornou-se um grande aliado do imperialismo recebendo inclusive grande quantidade de armamentos do Ocidente. No entanto, considero também um desvio “pablista” da LC realçar supostos fatores progressistas no regime de Kadafhi, como, por exemplo, o índice de desenvolvimento humano da Líbia. Nesse sentido, as posições da LC só se diferenciam na superfície das posições da LBI, sendo as desta mais estusiamadas no apoio a Kadafhi. O artigo da LC cita Trotsky na questão de uma hipotética guerra do Brasil com a Inglaterra em que ele coloca, a meu ver corretamente, que ficaria do lado do regime fascista de Vargas contra a agressão imperialista. Mas vejam bem, ele não precisou “enfeitar” o regime varguista e nem apresentá-lo como progressista. Tratava-se tão somente de apoiar a hipotética luta de um país semicolonial contra o imperialismo.
           
Fausto Barreira, Sociólogo

segunda-feira, 20 de junho de 2011

MOTIM DE BOMBEIROS – RJ

Nenhum apoio às reacionárias "greves" policiais
nem defesa da “desmilitarização” do 
aparato repressivo burguês!
Por comitês sindicais e populares de
socorro mútuo e auto-defesa das massas!
dO Bolchevique #5
CSP-Conlutas aborta a greve por melhores condições de trabalho nos metroviários-SP
e reivindica "melhores condições de trabalho" para nossos repressores
PM e Bombeiros, a repressão 'unida'
fica mais difícil de ser vencida
19/06/2011 Imediatamente após o motim dos bombeiros,
o conjunto do aparato repressivo realiza nova operação de guerra
contra os bairros proletários. Com o auxílio dos bombeiros, coluna de
blindados invadem o Morro da Mangueira (RJ) para a impor a 18ª UPP
http://www.jb.com.br/rio/noticias/2011/06/19/blindados-e-helicopteros-sao-usados-na-ocupacao-da-mangueira/

domingo, 12 de junho de 2011

PASSEATA EM SÃO PAULO DENUNCIA OCUPAÇÃO DO HAITI E INTERVENÇÃO NA LÍBIA

Frente Única de Ação versus Frente Popular de colaboração
Balanço do Ato de rua e polêmica em torno de um velho tema, sempre candente em nosso movimento
dO Bolchevique #5
Marcha da Coluna do Comitê Antiimperialista
sobre o viaduto do Anhangabaú
No dia 04 de junho realizou-se em São Paulo o ato nacional contra a intervenção imperialista no Haiti e na Líbia. Participaram da atividade as organizações: Comitê Antiimperialista, Comitê Pró-Haiti, Liga Comunista, Espaço Cultural Latino Americano, Refundação Comunista, Espaço Cultural Mané Garrincha, NATE, Núcleo do PSOL de Santa Cecília, PCO, PH, PCB, MST, UST, Intersindical, PCR e OT. A atividade foi divulgada na internet, blogs e sites. Seus cartazes foram colados nas universidades USP, PUC, Cásper Líbero, ESPSP, agências bancárias, Sindisprev/SP, nas assembleias dos trabalhadores metroviários, e em vários outros locais de trabalho e estudo. Reuniram-se trabalhadores de diversas categorias: bancários, dos correios, da USP, teleoperadores, operários, professores e estudantes universitários e do ensino médio, funcionários públicos e privados, aposentados, terceirizados. A concentração foi da Praça Ramos, em frente ao Teatro Municipal, e de lá as organizações, ativistas e lutadores sociais independentes, aproximadamente 100 manifestantes, marcharam em passeata bloqueando o viaduto do Chá, passando em frente à Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, até a Praça da Sé, onde se concluiu a atividade.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO 4/4

SU, CMI, L5I, LIT, PO, FT, FLTI: Finalmente as “Internacionais” revisionistas se ‘reunificam’ em Bengasi

Bengasi, 23 de março: "protesto rebelde"
com bandeiras da França, da ONU,
cartaz e bandeiras monarquistas
Sumário do artigo: PABLO, O PRIMEIRO LIQUIDACIONISTA DO TROTSKISMO • SECRETARIADO UNIFICADO • ACORDO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES (LAMBERTISMO) • CORRENTE MARXISTA INTERNACIONAL • LIGA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES • UNIDADE INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES • LIGA PELA 5A INTERNACIONAL • PARTIDO OBRERO • PARTIDO DA CAUSA OPERÁRIA • FRAÇÃO TROTSKISTA • FRAÇÃO LENINISTA TROTSKISTA INTERNACIONAL • MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO • LORISMO (PARTIDO OPERÁRIO REVOLUCIONÁRIO) • PARTIDO OPERÁRIO MARXISTA  • ESPARTAQUISTAS (LCI, TBI, IG) • COLETIVO LENIN • DO CONCILIACIONISMO PRÓ-IMPERIALISTA AO CONCILIACIONISMO PRÓ-NACIONALISTA • WORKERS REVOLUTIONARY PARTY • LIGA BOLCHEVIQUE INTERNACIONALISTA • OS REBELDES CONTRARREVOLUCIONÁRIOS SÃO O ARÍETES DA RECOLONIZAÇÃO IMPERIALISTA
Depois do início do bombardeio a Líbia em 19/03/2011, a Liga Comunista ampliou e atualizou a primeira versão deste polêmico artigo publicada no jornal O Bolchevique #3 em 12/03/2011.

domingo, 13 de março de 2011

ESPECIAL - ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO 2/4

Revoltas populares e Recolonização imperialista

Artigo do ESPECIAL - ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO
dO Bolchevique #3

Mulheres egípcias protestam contra a ditadura Mubarak
A CRISE CAPITALISTA É A MÃE DAS REVOLTAS POPULARES

A crise econômica de 2007-2008 provocou a onda de greves europeias em 2010 e de revoltas populares no norte de África e no Oriente Médio em 2011. Na América Latina, até o momento, mas não por muito tempo, os governos da chamada “centro esquerda” vêm retardando e amortecendo o conflito social através do controle que exercem sobre as organizações de massa.

Após transferir uma enorme massa de capitais dos cofres estatais para o bolso dos grandes capitalistas a fim de sanear o rombo causado pelo “dinheiro perdido” pelas grandes empresas com a queda das ações nas bolsas, os Estados capitalistas, tendo a frente os EUA e a Europa, tratam de cobrar a conta da orgia especulativa à classe trabalhadora do planeta.

O reaquecimento da economia posterior às demissões em massa geradas pela crise se apoia em um novo aumento da extração da mais valia e, portanto, no arrocho salarial, superexploração da força de trabalho, ajustes fiscais, cortes nos serviços sociais do Estado ligados à saúde e educação, destruição de conquistas trabalhistas, sindicais, da previdência estatal, etc.

Enquanto esperava pela recuperação no valor das ações dos bancos e indústrias (automobilística, Internet, etc.), os especuladores transferiram seus investimentos para os chamados commodities, produtos de origem primária, pouco industrializados, de baixo valor agregado e alto consumo global. Primeiramente para os commodities de origem agrícola, os alimentos. O índice CRB, que mede o preço das commodities no mercado global, atingiu 518,7 pontos em dezembro, superando o pico de 476,7 em junho de 2008. A população passou a receber menores salários, trabalhar mais e ainda sentiu a comida subir de preço com a perversa especulação financeira com os alimentos. Também em 2007 e 2008, distúrbios populares contra a alta dos alimentos eclodiram em países como Tunísia, Argélia, Jordânia, Egito, Moçambique, Marrocos e Chile.

Mas já em fevereiro, após iniciada a ofensiva dos EUA/OTAN sobre a Líbia a fim de tomar a dianteira da Europa no controle do petróleo daquele país e estabelecer um novo ponto de apoio político, militar e energético do imperialismo ianque no centro da África do Norte, como quando da ocupação do Iraque, os investidores giraram suas apostas dos commodities agrícolas para os minerais. O preço do petróleo disparou, acompanhado também pelo do gás, ouro e prata.

O FATOR BOUAZIZI OU O ELEMENTO INCONSCIENTE E ESPONTÂNEO

A inflação alimentar foi um dos principais combustíveis da revolta em países cuja população trabalhadora possui um alto nível de desemprego e recebe baixos salários, gastando a maior parte de sua miserável renda com alimentação. Enquanto nos EUA, a maioria da população gasta menos de 15% com comida, no Egito este índice passa de 50% dos salários.

Este é o elemento social genuíno das revoltas, predominante na Tunísia, Iraque, Egito, Palestina, Bahrein, Iêmen, Sudão, Argélia, Marrocos, onde a elevação dos preços dos alimentos invoca imediatamente a antiga revolta da fome. Não por acaso, o epicentro da revolta está em países que possuem grandes concentrações urbanas no continente historicamente mais famélico do globo, graças ao colonialismo e ao imperialismo dominantes initerruptamente, do império romano ao império ianque.

O desemprego juvenil é um agravante. Os países da Liga Árabe são os que concentram a maior quantidade de jovens. 65% da população do Magreb (Al-Maghrib, “nascente” em língua árabe, região que abrange do Marrocos à Líbia) e o Machrek (“poente”, do Egito à península arábica) tem menos de 30 anos. A região também detém a liderança mundial dos mais expressivos índices de desemprego, agravados após a crise financeira.

Na Tunísia, a população gasta 36% do que recebe com alimentos. A média de idade do país é 29 anos. O levante popular que levou à renúncia do ditador Ben Ali no dia 14 de janeiro passado teve como estopim o suicídio de um jovem de 26 anos. Sem conseguir emprego regular, Mohamed Bouazizi ajudava sua mãe e irmã com 75 dólares mensais (120 reais) como camelô. Seu pai morreu no ano em que Ben Ali chegou ao poder através de um golpe de Estado, quando ele tinha três anos de idade e desde os 10 ele vendia nas ruas depois do colégio. Desempregado, ateou fogo no próprio corpo em frente à sede do governo provincial em protesto contra o confisco de seu carrinho de frutas pela polícia, que alegou ser ilegal a venda ambulante no país. A causa principal do suicídio de Bouazizi não foi o fato dele não poder votar ou não possuir um blog, mas por não suportar ver sua família castigada pela fome e pelo frio. A imolação foi seu protesto individual pelo direito ao trabalho.

É este fator que leva a que genuínas revoltas contra a fome se convertam em protestos, greves econômicas e logo em greves políticas contra o desemprego, os baixos salários e à repressão. Marx considera que na luta pelo direito ao trabalho está o germe das futuras batalhas do proletariado, sendo o direito ao trabalho, a fórmula primeira, embrionária, acanhada, em

“que se condensavam as exigências revolucionárias do proletariado, [...] um desejo piedoso, miserável, mas por detrás do direito ao trabalho está o poder sobre o capital, por detrás do poder sobre o capital, a apropriação dos meios de produção, a sua submissão à classe operaria organizada, portanto, a abolição do trabalho assalariado, do capital e da sua relação recíproca”.
(As lutas de classes na França de 1848 a 1850)

O mesmo pode se dizer do conjunto das revoltas populares árabes nestes últimos meses, que são levantes espontâneos, desorganizados, sem consciência nem independência de classe, mas, sem dúvida, como as lutas contra a fome de 2007-2008 que as precederam, são escolas de luta política para as massas de toda a região.

Na Arábia Saudita, Omã, Iêmen, Jordânia, Kuwait e no Bahrein os governos títeres do imperialismo, temendo que a intensidade dos protestos em seus países alcancem os níveis que ocorreram na Tunísia e Egito, tratam de realizar pseudo-reformas democráticas, conceder miseráveis aumentos salariais e “pôr as barbas de molho”.

No entanto, a espontaneidade que num primeiro momento propulsiona o movimento, em breve se constitui seu calcanhar de Aquiles, ficando as massas rebeladas a mercê das articulações palacianas controladas pelo imperialismo. Sem um programa claro, sem uma estratégia de conquista do poder político e menos ainda organismos para isto, o movimento está condenado a um beco sem saída. Desgraçadamente, a heróica luta dos trabalhadores gregos acaba de comprovar, pela enésima vez, que sem teoria revolucionária fusionada com a luta de massas, através de um partido político de vanguarda com influência de massas, não há movimento revolucionário.

Mesmo as maiores greves gerais e as mais selvagens ocupações de fábrica não são capazes de resolver o problema da crise de direção revolucionária. Se no processo da luta as massas não encontram um rumo claro para sua emancipação e atendimento de seus objetivos, se não tiverem a sensação de que suas fileiras se tornam mais robustas e coesas, inevitavelmente, se inicia o processo da desmoralização. O combustível inicial, o agravamento da miséria, não é uma fonte regular e permanente de disposição de luta das massas para reagir coletivamente contra seus exploradores.  Muitos setores que fazem sua primeira experiência cairão na passividade. Em meio à crise dos governos interinos, as direções sindicais se incorporam ao regime. Sem a direção resoluta do proletariado de forma altiva, vencendo as batalhas, a pequena burguesia tende a conformar-se com a falsa democratização. Na vanguarda, e particularmente na vanguarda da juventude desempregada e sem esperanças de futuro, diante do refluxo da resistência coletiva começarão a surgir tendências ao aventureirismo ou ao protesto de grupos isolados, alvos fáceis da repressão seletiva de grupos fascistas patrocinados pela burguesia, armados pelo aparato repressivo estatal e recrutados no lumpemproletariado, até a proliferação desesperada de novos protestos individuais como o de Bouazizi.

A REAÇÃO PLANIFICADA E ESTRATÉGICA “COM FORMA DEMOCRÁTICA” DO IMPERIALISMO

Enquanto as massas sublevadas permanecem carentes de um plano estratégico e de organismos próprios, independentes para executá-lo, o imperialismo aproveita-se da turbulência para realizar uma nova ofensiva com a finalidade de otimizar seus lucros na região. Como de costume, fingindo-se amante da liberdade e defensor da democracia, os EUA tratam de conduzir, por cima, um reordenamento de seu domínio na região, apoiando-se em cada país e, antes de tudo, na espinha dorsal de seus regimes títeres, nas Forças Armadas cipaias de suas semicolônias, controladas, em primeira instância, pelo Pentágono, CIA, M19 e Mossad.

A “democratização” imperialista da África e da Ásia, controlada pela casta militar umbilicalmente ligada aos amos do grande capital, reedita, de forma ainda mais burlesca no século XXI e naquela parte do globo, os processos de transição das ditaduras militares para as democracias tuteladas, de abertura lenta e gradual da América Latina nos anos 1980 sob a pressão de jornadas de greves operárias e levantes populares em nosso continente. Todavia, o que acontece com o desvio da luta de nossos irmãos africanos e asiáticos expressa justamente o espirito reacionário de nosso momento histórico e a desfavorável correlação de forças para os trabalhadores na guerra entre as classes, criadas com o triunfo da contrarrevolução nos antigos Estados Operários da URSS e Europa e o AVANÇO DESIGUAL E COMBINADO DA RESTAURAÇÃO CAPITALISTA na China, Vietnã, Cuba e Coréia do Norte. Guardadas suas diferenças, a atual ofensiva imperialista contra a Líbia disfarçada de guerra civil tem o mesmo significado como divisor de águas da esquerda mundial que a guerra das Malvinas representou.

Incomparavelmente mais importantes do que as ONGs patrocinadas pela CIA, as novas tecnologias da comunicação (internet, facebook, twitter, etc.), os organismos internacionais e profissionais da contrarrevolução estão tratando de apropriar-se dos destinos da turbulência para impor uma nova derrota as massas e realizar uma recolonização sob o tacão de Obama, mais profunda e consistente do que a ofensiva militar de Bush. Se os novos governos não conseguirem impor a estabilização política pela via do engano e das promessas “democráticas”, o farão pela repressão tão ou mais truculenta do que nos piores dias dos ditadores que deixaram a cena política.

TUNÍSIA:
FRENÉTICA TROCA DOS “FUZÍVEIS” DO IMPERIALISMO

O primeiro ministro substituto de Ben Ali não governou por 50 dias. Mohammed Ghannouchi, que havia sido membro do governo Ben Ali por 11 anos e que substituiu o ditador afugentado pelos protestos de dezembro e janeiro, também foi obrigado a renunciar após mais de uma semana de manifestações em massa controladas pela oposição burguesa contra o “novo” governo. O presidente interino, Fouad Mebazaa, outro ex-ministro de Ben Ali, nomeou então o Beji Caid-Essebsi, de 84 anos, que por um longo tempo foi funcionário do governo Habib Bourguiba, golpeado por Ben Ali em 1987, como o novo primeiro-ministro e reiterou a promessa de realizar eleições para substituir o regime interino até 15 de julho.

Os oportunistas sindicais da União Geral dos Trabalhadores da Tunísia (UGTT), do Partido Comunista dos Trabalhadores da Tunísia (PCOT), stalinista, do Partido Progressista Democrático (PDP), partido da burguesia liberal e a oposição islâmica, Ennahda salivaram por ocupar três pastas no gabinete Ghannouchi. Mas, a exceção do PDP que assumiu o governo Ghannouchi, foram obrigados a retroceder diante da hostilidade das massas contra o ex-ministro de Ben Ali. Por isto, aliaram-se aos setores “democráticos” da burguesia para impulsionar um governo Caid-Essebsi que não seja imediatamente identificado pelas massas com os crimes de Ben Ali. Todavia, essa política de amortecimento da força do levante popular pavimenta a estabilização da reação burguesa.

Seis dias antes de sua renúncia, Ghannouchi havia recebido a visita de dois representantes de alto nível do império ianque, os senadores John McCain e Joseph Lieberman. Este último é representante do sionismo na caravana parlamentar do Império e foi candidato à vice-presidência dos Estados Unidos em 2000, na chapa encabeçada por Al Gore. McCain, o candidato presidencial republicano em 2008, asseverou: “A revolução na Tunísia foi muito bem sucedida e tornou-se um modelo para a região”, e falando como representante do governo Obama acrescentou: “Estamos prontos para fornecer treinamento para ajudar os militares da Tunísia para garantir a segurança.” As palavras de MacCain não passam de proselitismo. A “revolução bem sucedida e modelo para a região”, ou seja, a reação que estancará o levante popular, lançou mão do recurso da “troca de fusíveis”.

Se o imperialismo conseguir, através da rotatividade no poder das diversas alas da burguesia títere e da inclusão dos burocratas sindicais da UGTT no regime, conduzir as massas para as ilusões parlamentaristas e fazer refluir o movimento, o estrangulamento do levante pela via da reação “com forma democrática” se dará através do menor custo político, sendo necessário o esmagamento físico do movimento “para garantir a segurança” apenas de forma seletiva, para os setores mais indômitos do levante.

EGITO:
CONTINUIDADE DA DITADURA MILITAR SEM MUBARAK

No Egito, o imperialismo cogitou mudar seu desgastado peão no poder sob a pressão das maiores revoltas populares do país, expressando um crescente depois das greves de Mahalla de 2006 e das greves contra a fome em 2008. “Nada disso surpreendeu muito a Casa Branca que há poucos meses, a pedido de Obama, começou a examinar a vulnerabilidade desses regimes e, mais recentemente, passou a examinar o que torna bem sucedida uma transição para a democracia. Michel McFaul, importante assessor de segurança nacional do governo americano, comanda o que chama brincando, de ‘Diretório Nerd’ da Casa Branca, onde passa semanas produzindo estudos de caso para o presidente e o Conselho de Segurança Nacional. ‘Não há um só enredo nem um só modelo, afirmou MacFaul.” (New York Times, 28/02/2011).

Fanfarronice post festum ou não, o fato é que a relutância de Mubarak a retirar-se do poder acabou quando a alta cúpula das Forças Armadas, orientada pelos EUA, o pressionou a renunciar, para assumir ela mesma a frente do governo e fazer refluir a pressão popular no momento em que os trabalhadores deixaram de protestar como massa amorfa de manifestantes da Praça Tahrir e se somaram aos protestos como classe sindicalmente organizada através das greves de operários têxteis (48% da força de trabalho está empregada no ramo têxtil), dos trabalhadores do Canal de Suez, bancários, ferroviários, petroleiros, motoristas de ônibus.

Os 24 mil operários da Misr Spinning and Weaving, a maior fábrica de fiação e tecelagem do país, cruzaram os braços no dia 10 de fevereiro. Mubarak renunciou no dia seguinte. Os operários da Misr entraram em greve novamente no dia 16, desafiando as advertências da Junta Militar de que as paralisações não seriam mais toleradas e, por seu peso estratégico dentro da classe operária egípcia, em quatro dias tiveram suas reivindicações atendidas, um aumento salarial de 25% e a demissão de um gerente corrupto. Em algumas greves, foram agregadas às reivindicações econômicas os mesmos slogans gritados na Praça Tahrir, principalmente o “Fora Mubarak!”. Em outras, o movimento grevista impulsionou a desfiliação de seus sindicatos da Federação Sindical corrupta e pelega, atrelada ao Estado desde sua criação por Nasser em 1957.

Apesar de ter que realizar operações seletivas, como a contenção desta e de outras greves ou a repressão militar-policial direta ou por meio de grupos fascistas mascarados, após a renúncia de Mubarak a reação conseguiu o que buscava: a desmobilização da revolta. Vale destacar que uma vez desmontada a mobilização popular de caráter político, pela saída do ditador, setores de trabalhadores aproveitaram o momento para desatar greves, que por seu caráter econômico e pelo refluxo do movimento foram dispersadas em vez de unificadas. Afora algumas concentrações ordeiras semanais capitaneadas pela oposição burguesa egípcia (El Baradei, Irmandade Islâmica, etc.) em favor de que os militares mantenham sua palavra de realizar eleições no segundo semestre, o movimento tende a um novo refluxo.

Depois de 18 dias de massivos protestos populares, o governo Obama e a burguesia egípcia realizaram um gesto teatral em que simplesmente destituíram o ditador odiado para manter intocável a espinha dorsal do regime títere sobre as massas egípcias e palestinas a serviço do imperialismo e do Estado de Israel, ou seja, a tutela completa da casta militar sobre a máquina estatal capitalista, que controla 30% da economia do país. Além do país ser controlado diretamente por uma Junta Militar, o Conselho Supremo das Forças Armadas, todas as outras instituições petrificadas da ditadura Mubarak seguem governando. O ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi, que chefia o Conselho Militar, demitiu o gabinete e suspendeu o Parlamento para administrar, em conjunto com o arqui-mafioso chefe da Suprema Corte Constitucional. Nem sequer foi revogado o “Estado de emergência” (condição de Estado de sítio instituído por todas as ditaduras militares contra a população que, juntamente com o toque de recolher, outorga plenos poderes repressivos para as FFAA) instituído há três décadas.

Se Mubarak tentava aparentar uma fachada civil, com eleições fraudulentas regulares, sob um governo cívico-militar, sua renúncia tirou-o de cena como preposto das Forças Armadas. Agora governam diretamente os militares sob os quais o mubarakismo se apoiou por três décadas. Depois de Israel, o Egito é o país que mais recebe financiamento dos EUA, U$ 1,3 bilhões anuais, para aquisição de armamentos. O país é desde o governo Sadat, sucessor de Nasser e precussor de Mubarak, uma peça vital para a dominação dos EUA sobre o rico petróleo do Oriente Próximo. O Egito tem sido um aliado estratégico de Israel e ajudado no bloqueio de fome imposto pelo Estado nazi-sionista aos palestinos em Gaza, fechando a fronteira com o Sinai. Nos últimos cinco anos, a dívida externa do país cresceu cerca de 50%, atingindo US$ 34,1 bilhões em 2009. As reservas de US$ 36 bilhões do país são baseadas em dinheiro emprestado. No início da crise, especuladores detinham cerca de US$ 25 bilhões em títulos públicos, 40% do total.

A “transição” na Tunísia e Egito ganha tempo para dissipar a revolta popular, preservar as políticas econômicas e os ajustes para pagamento da dívida externa e cristalizar a correlação de forças em favor do estabelecimento de um governo mais estável e economicamente rentável frente a odiada ditadura anterior.

UMA OPORTUNIDADE PARA AUMENTAR A EXPLORAÇÃO DO PROLETARIADO

É importante recordar que em seu discurso proferido no Cairo em junho de 2009, Obama deixou um recado para seus títeres na região: “uma coisa é clara, os governos que protegem os direitos democráticos são, em última instância, mais estáveis, bem sucedidos e seguros... a América no passado focou o petróleo e o gás nesta parte do mundo, hoje procuramos um engajamento mais amplo... vamos criar um novo corpo de voluntários empresariais para formar parcerias com contrapartes em países de maioria muçulmana,... identificar como podemos aprofundar os laços entre líderes empresariais, fundações e empreendedores sociais nos Estados Unidos e em comunidades muçulmanas em todo o mundo.” A administração Obama, praticamente parida da crise econômica, aposta profundamente na ideia imperialista de que a crise é o momento de aproveitar as oportunidades ampliando os negócios nos velhos domínios e dominando mercados em que não é hegemônico, como é o caso da Líbia.

A destituição de Mubarak, que muitas organizações de esquerda dizem ser uma “revolução”, foi comemorada no “sensível” mundo das finanças, melhor dizendo, na alta roda do capital financeiro e especulativo mundial: “Bolsas dos EUA fecham em alta no dia em que presidente do Egito deixou o cargo. Os principais índices acionários dos EUA inverteram a tendência da abertura e avançaram no dia em que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, deixou o cargo após 30 anos no poder e manifestações que duraram 18 dias. O ditador delegou poderes às Forças Armadas, em uma decisão que trouxe alívio ao mercado desde a tarde.” (InfoMoney, 11/2/2011).

Dentre os conselheiros da Junta Militar estão gente como o Secretario Geral da Liga Árabe, Amr Moussa, que excluiu a Líbia do organismo para isolar o governo Gadafi em favor da vitória rápida das forças pró-imperialistas sobre Trípoli. O bilionário egípcio Naguib Sawiris, proprietário da Orascom Telecom Holdings (OTH), a maior empresa de telecominicações do Oriente Médio e Magreb. “Apesar de estar sendo apontado pelos manifestantes da Praça Tahrir como um dos responsáveis pelas pragas do Egito, Sawiris, o bilionário, longe de desanimar, acha que da turbulência pode emergir uma economia mais vibrante egípcia. (Stanley Reed, “Mogul do Egito Telecom adota Uprising”, Bloomberg Business Week, 10/02/2011).

As Bolsas e o sultanato burguês da região apostam claramente suas expectativas de lucro na reciclagem da ditadura militar com promessas “democráticas”.

“Um movimento democrático ou de libertação nacional pode oferecer à burguesia a oportunidade para aprofundar e aumentar suas possibilidades de exploração. A intervenção independente do proletariado na arena revolucionária ameaça tirar da burguesia a possibilidade de explorar qualquer coisa.”
(Balanço e perspectivas da Revolução chinesa; suas lições para os países do oriente e para o Comitern, Stalin, o grande organizador de derrotas”, Trotsky, 1930).

AS TAREFAS DEMOCRÁTICAS IMEDIATAS DO PROLETARIADO ÁRABE

A intervenção independente do proletariado do Magreb na arena política pressupõe conhecer as tarefas necessárias para impedir que a burguesia local e mundial aumentem sua exploração e o manipulem com sua luta democrática e anti-imperialista. Neste sentido, os aduladores revisionistas que usam de demagogia e triunfalismo para falar de “revolução árabe, democrática” e de “insurreição proletária” inexistentes, prestam um grande serviço ao imperialismo, jogando terra nos olhos das massas enquanto os governos interinos supostamente paridos das tais “revoluções” reestabilizam a situação política.

Outras correntes, como a LBI, simplesmente rechaçam as tarefas democráticas fundamentais e imediatas em uma atitude de desprezo pela disputa da consciência dos trabalhadores. A atitude do marxismo em relação à democracia formal nada tem a ver com a negação estéril do anarquismo.

Não podemos rechaçar a representação democrática do povo, nas condições de um período não revolucionário, quando as revoltas populares nem sequer realizaram suas tarefas mais imediatas, nem podem realizar nos marcos capitalistas. Não é renunciando as palavras de ordem democráticas que os revolucionários conquistarão a consciência das massas oprimidas por uma ditadura militar.

Defender a assembleia constituinte em situações como  à revolta popular de 2001 na Argentina, quando por quase duas décadas as massas já realizaram experiências com a democracia semi-colonial burguesa, como fez toda a família revisionista do trotskismo argentino (do PO a LOI-DO) é alimentar ilusões parlamentaristas na recomposição burguesa do regime. Mas esta questão se coloca de modo completamente diverso nas semi-colônias e países governados por décadas por ditaduras militares burguesas como é o caso da Tunísia e do Egito e muitos outros países do Magreb e Oriente Médio, governados por ditaduras militares ou monárquicas.

Para os genuínos trotskistas

“a vitória da revolução democrática só é concebível por meio da ditadura do proletariado apoiada na sua aliança com o campesinato e destinada, EM PRIMEIRO LUGAR, a resolver as TAREFAS DA REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA.”
(Tese 4 da Revolução Permanente, L. Trotsky, 1930, maiúsculos nossos)

Nestes países, as massas buscam uma fórmula política simples que expresse diretamente sua própria força politica, quer dizer, sua predominância numérica. E a expressão politica do predomínio da maioria é a democracia formal burguesa.

“A questão da democracia formal é para nós o problema da atitude frente às massas pequeno-burguesas e também frente às massas operárias, na medida em que estas não adquiriram ainda uma consciência de classe revolucionária (...) Cada dia de estabilização provocará enfrentamentos mais numerosos entre o militarismo e essa burocracia por um lado, e por outro não somente operários progressistas, mas também a massa pequeno-burguesa predominante nas cidades e do campo e inclusive, com certos limites, a grande burguesia. Antes destes enfrentamentos tornarem-se luta revolucionária, passarão, segundo os dados, por uma fase ‘constitucional’. Os conflitos entre a burguesia e suas próprias camarilhas militares se estenderão inevitavelmente, através de um “terceiro partido” ou por outros meios, aos estratos superiores das massas pequeno-burguesas. No plano econômico e cultural essas massas são extremamente débeis. Sua força politica potencial deriva de seus número. As palavras de ordem da democracia formal conquistam ou são capazes de conquistar não somente as massas pequeno-burguesas, mas também as grandes massas operárias, porque essas oferecem a possibilidade – pelo menos aparentemente – de opor sua vontade a dos generais, dos latifundiários e dos capitalistas. A vanguarda proletária educa as massas utilizando essa experiência e as conduz adiante.”
(Os Sovietes e a Assembleia Constituinte. A questão chinesa depois do VI Congresso; Stalin, o grande organizador de derrotas, 1930).

Na Tunísia e no Egito, o imperialismo, os governos interinos herdeiros da ditadura e a oposição burguesa, o “terceiro partido”, tratarão de jogar com as ilusões democráticas das massas.

Os marxistas devem tornar-se campeões da luta pela completa destruição da máquina assassina da ditadura Ben Ali e de Mubarak, da defesa das liberdades democráticas, da livre organização sindical e da imprensa operária, plenos direitos de greve e de reunião, de organização político partidária e eleitoral, por uma Assembleia Constituinte livre e soberana, revolução agrária, libertação de todos os presos políticos. A concretização dessas demandas exige a organização de uma insurreição proletária para derrubar o regime militar. Ao mesmo tempo, devem lutar para elevar a um nível superior as organizações da classe, como os comitês de greve, que devem se converter em órgãos embrionários de duplo poder das massas.

Da mesma forma, a bandeira da libertação da mulher trabalhadora na África e no Oriente Médio, como a mulher egípcia, vanguarda de muitas greves têxteis, não deve ficar na mão demagógica da burguesia liberal ou do imperialismo. Cabe a classe operária lutar contra a mutilação genital e todas as formas de opressão obscurantistas. Como nos ensionou Trotsky:

“Não haverá melhores comunistas no Oriente, nenhum lutador melhor para as ideias da revolução e para as ideias do comunismo do que a mulher trabalhadora desperta para a luta.”
(Perspectivas e Tarefas no Oriente, 1924)

Aliadas a estas tarefas democráticas, estão as da luta pela libertação nacional e pelo socialismo contra o julgo imperialista, o desconhecimento da dívida externa, a nacionalização sem indenização dos bancos, do capital financeiro e de todas as multinacionais, o pleno apoio à luta palestina pelo fim do cerco a Gaza e o bloqueio imperialista ao Irã, o fim das exportações de gás subsidiadas a Israel, pela destruição do Estado nazi-sionista e a criação de uma Palestina Soviética de conselhos de operários hebreus e palestinos, pela expulsão do imperialismo dos países vizinhos como a Líbia, Somália, Iraque, Afeganistão e sobre os escombros das atuais semicolônias dependentes e criar a Federação das Republicas Socialistas da África e Oriente Médio.

Conquistando as massas da influência política da oposição burguesa ao tornar-se o defensor “número um” das tarefas democráticas que os “novos” governos vão continuar estrangulando através da recolonização imperialista apoiada nos setores mais reacionários das classes dominantes, o partido do proletariado demonstrará que a realização de tais tarefas só é possível através de uma aliança do proletariado com a pequena burguesia urbana e rural e, através dos métodos de ditadura revolucionária do proletariado, do armamento de todo o povo, dissolução das sanguinárias polícias, ocupação de fábricas, piquetes, greves gerais, expropriação das empresas capitalistas, das multinacionais, agroindústrias e latifúndios, controle operário das riquezas nacionais, rumo à conquista do poder pelos trabalhadores.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

NASCE A LIGA COMUNISTA


Contra o ceticismo, construir o partido trotskista revolucionário da classe operária!

"Nenhuma situação, por cinzenta e pacífica que seja, como tampouco nenhum período de decaimento do espírito revolucionário exclui a obrigatoriedade de trabalhar pela criação de uma organização de combate, nem de levar a cabo a agitação política; mais ainda, é precisamente em tais circunstâncias e tais períodos que é especialmente necessário o trabalho indicado porque em momentos de explosão e estouros é tarde para criar uma organização. A organização tem que estar pronta para desenvolver sua atividade imediatamente."
Lenin, Por onde começar, 1900

Apresentamos aos trabalhadores, a juventude e a van­guarda do movimento operário os motivos de nossa ruptura com a Liga Bolchevique Internacionalista.

Como em nenhuma época histórica anterior, a carên­cia de uma direção revolucionária do proletariado cobra hoje seu preço. Faz um século que o capitalismo entrou em sua decadência senil. Embora goze do maior grau já atingido pela humanidade em sua evolução tecnológica, arrasta a civilização para a barbárie, degradando o ser hu­mano e todo o resto da natureza. Concomitantemente, as correntes que se reivindicam marxistas estão reduzidas a pequenos agrupamentos de propaganda sem absoluta­mente nenhuma influência real sobre as massas proletá­rias, as únicas que podem liquidar a agonia capitalista.

Marx e Engels tinham o direito legítimo de consti­tuir uma liga de propaganda na aurora do socialismo científico. Todavia encontrar-se nesta condição 150 anos depois da elaboração do Manifesto do Partido Comu­nista não é mais um direito, mas uma deformidade re­tardatária que contribuiu decididamente com o agra­vamento das condições de vida da classe trabalhadora sob a decadência do capitalismo. A inexistência de uma direção revolucionária para a luta das massas se rela­ciona com a barbárie imperialista de forma dialética, como causa e efeito. Como Trotsky prognosticara, as condições objetivas para a revolução proletária apo­drecem e a humanidade caminha para uma catástrofe.

Também não é válido justificar a impotência atual usando como parâmetro a debilidade das primeiras or­ganizações trotskistas na década da fundação da IV In­ternacional. Trotsky e seus camaradas estavam submeti­dos a uma caçada de extermínio físico por parte da GPU (futura KGB), aos Processos de Moscou, no auge da degeneração burocrática e policialesca do primeiro Es­tado operário e da III Internacional. Simultaneamente, graças ao stalinismo, a revolução chinesa foi afogada em sangue, os processos revolucionários na França e Espa-nha foram abortados pelas frentes populares e ditaduras nazi-fascistas passaram a controlar importantes Estados capitalistas. Além de criar a reação fascista, como contra­ponto à URSS, o imperialismo tratou de resolver a crise de superprodução de 1929 através da II Guerra mundial.

Sob terríveis perseguições, a vanguarda revolucio­nária do proletariado, o núcleo fundador da IV Inter­nacional, foi, segundo a expressão do próprio Trots­ky, “exilado de sua própria classe”. A repressão física fatal que liquidou todo o comitê central bolchevique, os melhores elementos da geração que realizou a re­volução de 1917, também assassinou os melhores qua­dros da IV Internacional. Nem de longe esta eliminação física e objetiva pode ser comparada ao isolamento ideológico de hoje. São duas circunstâncias desfavo­ráveis que exigem táticas de sobrevivência distintas.

A atrofia política da LBI só pode ser compreendida no marco das consecutivas derrotas da classe operária nos últimos 20 anos. É preciso destacar: compreendida, mas não justificada. A LBI nasceu depois de todas as on­das do movimento de massas brasileiro (greves metalúr­gicas contra a ditadura que desembocaram na fundação do PT e da CUT, movimento nacional pelas “Diretas- Já!”, polarização eleitoral de 1989, Fora Collor) e sob a ofensiva anticomunista gestada pela principal derrota do proletariado mundial, a contrarevolução que restau­rou o capitalismo na URSS e no Leste Europeu (1989- 1991). Para piorar, se a desmoralização da era pós-URSS se abateu sobre a esquerda mundial na década de 1990, no Brasil, este quadro se agravou, particularmente, pela consolidação do mais aprimorado mecanismo de coop­tação da vanguarda operária existente no planeta, com a ascensão da frente popular ao governo federal em 2002.

A jovem corrente nasceu órfã e solitária por suas po­sições programáticas principistas, defendendo retrospec­tivamente um Estado operário, a URSS, que já não exis­tia mais e combatendo a frente popular que tornou-se o principal instrumento da dominação burguesa no Brasil e do imperialismo no continente. Neste quadro se impôs de maneira crescente um sentimento de impotência e confor­mação diante de situações cada vez mais desfavoráveis para a luta dos trabalhadores. No último período, ciente da nova ofensiva reacionária gerada pela crise econômi­ca, a LBI cristalizou um curso político de reduzir suas atividades de combate ao revisionismo no âmbito literal-virtual, dentro do pequeno mundo da fração de esquerda da frente popular que orbita em torno do PSOL e PSTU.

A QUE HERANÇA RENUNCIAMOS?

Este pequeno universo da oposição pequeno-bur­guesa tornou-se mais esquálido nas eleições de 2010, sendo esmagado pela pressão da frente popular e da oposição burguesa, reciclada em torno da simbiose petista-tucana que foi a candidatura Marina. Elegen­do como centro de sua intervenção a ala esquerda des­ta oposição pequeno-burguesa, a LBI limita-se a rea­lizar uma admoestação completamente inócua sobre o pseudotrotskismo que gravita neste meio político.

Diante da reação crescente, os revisionistas em geral vendem as derrotas da classe como se fossem vitórias. Assim, a contrarevolução na URSS foi vendida como al­gum tipo de “revolução política”; o crash financeiro mun­dial que justificou o agravamento do saque aos salários e aos direitos históricos dos trabalhadores, foi anuncia­do como o prenúncio de uma implosão do capitalismo.

O objetivo destas delirantes falsificações da realida­de é dissimular a desmoralização e a própria impotência diante da reação e euforizar a militância. Não comun­gando destes métodos, mas padecendo de mesma im­potência, a LBI cai na prostração, quando é obrigada a constatar que sua intervenção sobre o revisionismo não surte qualquer efeito político e menos ainda organizativo.

Enquanto os pseudotrotskistas desespera­dos para sair da marginalidade adaptam-se às di­reções oportunistas e às pressões da reação ideológica, adotando cada vez mais um caráter vergon­hosamente colaboracionista de aconselhadores de esquer­da da frente popular, a LBI contenta-se em fazer parte desta cadeia sendo a extrema esquerda dedicada a fazer admoestação crítica aos que aconselham a frente popular.

Os fundadores da IV Internacional foram executados pelo stalinismo e seus seguidores declinaram da tarefa de reconstruí-la, abandonando os princípios mais elemen­tares das teses da revolução permanente e do programa de transição para seguir a reboque, primeiro, do próprio stalinismo, depois da social-democracia e do nacionalis­mo burguês. Do mesmo modo e mais cedo ainda deser­taram do combate pela consciência da classe operária, onde se localiza a reserva social e política para romper com o isolamento político e a “solidão revolucionária”.

Também desprezando o trabalho paciente por formar quadros operários por fora do círculo hiperdeformado da pequena-burguesia e da aristocracia operária brasilei­ras, a LBI impôs a si um beco sem saída. Vítima pas­siva de conjunturas cada vez mais desfavoráveis à luta da classes, a LBI chegou a meados de 2010 prostrada diante da reação ideológica anticomunista pós-URSS e em especial da pressão da frente popular no Brasil.

Mesmo que se possa objetar que frente à militância virtual que caracteriza centenas de agrupamentos de es­querda do século XXI a LBI seja uma das mais ativas cor-rentes, a auto-exclusão do movimento operário, o traba-lho exclusivamente microvanguardista em uma militância sindical escolada no anticomunismo e antibolchevismo petistas, nunca construirá uma organização revolucioná­ria do proletariado. Está mais do que provado que prog­nósticos corretos, acertos políticos e iniciativas dirigidas a este tipo de gente tão profundamente desmoralizada, por mais justos que sejam, por si só não elevam a classe trabalhadora à altura de suas tarefas históricas. Na me­lhor das hipóteses, podem gerar, na expressão de Trots­ky, “um clube de discussão de alto nível” (A composição social do partido, Escritos, 10/10/1937), completamente à margem da luta para elevar a classe trabalhadora ao nível da luta por seus interesses históricos, de libertação da idiotia e da bestialidade a que está submetida para dar à história um curso diferente da barbárie imperialista.

Renunciamos à herança dos que desprezam o trabalho de elevar o proletariado à consciência bolchevique, co­mum à totalidade do revisionismo, e que a LBI não foi ca­paz de superar, nem o quis. Todas as organizações de es­querda no Brasil abandonaram o trabalho de formação de quadros operários pelo menos desde a década de 1980. As mais novas, já educadas pela escola petista, de relações completamente deformadas com a classe (trade-unismo, cretinismo parlamentar, populismo, assistencialismo), re­produzem desvios do lulismo como o PSOL e o PSTU.

Quando falamos de educação da classe não nos referi­mos a escolinhas de socialismo para estudantes e trabalha­dores, realizadas completamente à margem da luta política de partidos. Nem temos a ilusão de que os trabalhadores encontrarão o socialismo a partir do acúmulo de experiên­cias sindicalistas, movimentistas ou “de lutas”. É neces­sário o recrutamento das massas nas lutas, nos locais de trabalho e estudo para a compreensão estratégica da orga­nização política, instruí-las na ideologia comunista rumo à construção de um partido de vanguarda. Em nível imediato e direto ajudá-las a combater ao principal câncer do movi­mento de massas brasileiro, o lulismo e seus satélites que sabotam a luta de classes do caminho da revolução social.

VOLTAR AO MOVIMENTO OPERÁRIO PARA PREPARAR A NOVA GERAÇÃO DE QUADROS REVOLUCIONÁRIOS QUE SUPERARÃO A DEFORMAÇÃO DA ERA LULISTA!

Para nadar contra a corrente, enfrentar o oportunismo encastelado no Estado, seus satélites centristas adaptados ao regime em meio ao refluxo das lutas espontâneas, du­rante uma situação cinzenta, pacífica e de decaimento do espírito revolucionário, nosso trabalho precisa ser sobre­tudo paciente e abnegado. Temos claro que não há outro modo de superar o período lulista da história do movi­mento operário brasileiro sem que uma nova geração de quadros operários sejam preparados sob um programa trotskista. O que indica, portanto, que devemos começar a tarefa voltando ao movimento operário. Não há atalho.

O novo curso requer desenvolver a agitação polí­tica revolucionária sobre as massas, atividade que as pequenas organizações abandonaram ou a fazem de modo extremamente atrofiado e os centristas e gran­des partidos oportunistas a fazem de modo deforma­do. Isto não implica em qualquer desprezo pela luta teórica ou ideológica em defesa dos princípios. Sem esta propaganda não haverá formação genuinamen­te marxista e menos ainda movimento revolucionário.

A história não acabou, toda a vida política é uma luta sem fim composta de um número infinito de elos. É hora de furar o cerco oportunista restabelecendo estreitos vínculos com a classe que, por seu papel na produção, é a mais pro­gressista da sociedade atual. Sem qualquer pretensão de inventar uma fórmula nova de organização política, reivin­dicamos a luta pela construção de um partido de revolucio­nários profissionais, centralizado, conspirativo, composto pela vanguarda consciente do proletariado do século XXI.

Apropriando-se dos melhores recursos logísticos de hoje para levar adiante a tarefa, é preciso retomar os bons e velhos métodos bolcheviques de agitação, propaganda e organização política que levou mais adiante a luta pelo socialismo, que foram capazes de levar os trabalhadores conscientemente à tomada do poder através da revolução social e à instauração de sua ditadura revolucionária.

DA PROSTRAÇÃO AO CETICISMO, VÁRIOS PASSOS ATRÁS

O reconhecimento da classe operária como protago­nista histórica da revolução socialista consta nos pontos programáticos da LBI. É repetido em muitas conclusões de seus artigos. Mas converteu-se em letra morta na me­dida em que o próprio agrupamento convenceu-se após três ofensivas mundiais do imperialismo (restauração capitalista nos Estados Operários, guerra ao terror pós 11/9/2001 e crise econômica de 2008) de que não apenas a revolução não era mais uma tarefa para nossas vidas, mas que a luta pela própria construção do partido bolche­vique da classe operária já não tinha mais vigência práti­ca efetiva. Daí a conclusão catastrófica da maioria da di­reção na reunião do dia oito de setembro de 2010: “frente ao atual retrocesso ideológico na classe é impossível a um núcleo revolucionário inserir-se no proletariado”. Trata-se, nada mais, nada menos, do que da fórmula da pros­tração, como caracterizamos durante a própria reunião.

Esta concepção norteou outro passo atrás. Em meio a uma crise desagregadora com um militante da regional paulista no mês de julho de 2010, a maioria do CC, contra as posições de Humberto, decidiu por baixar as portas da regional São Paulo e reconcentrar a LBI em Fortaleza.

A decisão significava uma reversão autofágica da acertada orientação política deliberada na IV Conferên­cia da LBI, tomada cinco anos antes, que orientou o deslocamento gradual da direção política da corren­te de Fortaleza para São Paulo, justificado pelo fato de a capital paulista ser a principal cidade operária da América Latina e centro político nacional do Brasil.

E o pior é que tamanho recuo não se­guia nem um plano estratégico, apenas cris­talizava o curso de prostração da corrente.

A maioria da direção da LBI dava um passo atrás em uma orientação de estruturação que até então mar­cava uma das principais diferenças entre a ousadia da corrente e a prostração dos demais pequenos agrupa­mentos regionais. Com esta medida a LBI retrocedia do seu nacional-trotskismo para o que poderíamos chamar de forma muito otimista de municipal-trotskismo. Ao completar 15 anos de existência, 200 edições do Jornal Luta Operária e ter se tornado uma referencia política principista na vanguarda de esquerda nacional e inter­nacional, a LBI retrocedia em direção a converter-se em um organismo monocelular. A renúncia à luta pela cons­ciência da classe conduz, invariavelmente, à revisão do ABC do trotskismo. O próximo passo é responsabilizar o proletariado e não sua covarde direção política pela situação sem saída em que se encontra a humanidade.

Em nenhum país, sob nenhuma circunstância, o pro­letariado por si só foi capaz de compreender sua tarefa histórica. Somos obrigados a lembrar que a alienação ou a falta de consciência política do proletariado não são fenômenos novos para o marxismo. Muito pelo contrário, aprendemos que as ideias dominantes en­tre os trabalhadores, são as ideias das classes domi­nantes, que os operários não desenvolvem sozinhos a consciência socialista, que esta só pode ser introduzida de fora da classe pelos intelectuais materialistas dia­léticos como foram Marx, Engels, Lenin e Trotsky.

Mas, se a vanguarda marxista, oriunda da pequena bur­guesia, acomodou-se e só faz política entre si, recorrendo à classe operária apenas para lhe pedir apoio em eleições sindicais ou burguesas, como pode o trotskismo penetrar na classe? Esperar que o proletariado, sob o impacto das derrotas históricas e da educação ministrada pelo creti­nismo parlamentar, trade-unismo, onguismo, ... não retro­ceda por décadas em sua compreensão política, é idea­lizar um proletariado que não existe nem nunca existiu.

As massas repletas de contradições internas só terão sua consciência modificada em favor da revo­lução se os marxistas o fizerem. Pensar de outro modo é apostar no espontaneísmo que nada tem a ver com o leninismo. Lavar as mãos para esta tarefa, consideran­do-a “impossível” consolida o pernicioso divórcio da teoria política com a classe, conduz à ruptura progra­mática com o trotskismo e, seguramente, ao ceticismo.

EM DEFESA DA LUTA PELA CONSCIÊNCIA DOS TRABALHADORES

A derrota do proletariado da Europa em geral e grego, em particular, obrigado a pagar de maneira exemplar o cus­to da farra dos especuladores europeus e ianques depois de várias greves gerais, comprova de maneira cabal que para qualquer futuro triunfo proletário é imprescindível que as massas sejam conduzidas por uma direção revolucionária. Mesmo que entre o cinzento momento atual e a próxima “explosão”, para usar a expressão de Lenin na frase que abre este documento, dure décadas, acreditamos que o fun­damento de nossa existência deva ser criar a organização de combate e fazer a agitação política que salve o porvir.

A maioria da direção da LBI também argumenta que tais concepções de nossa parte não justificam a ruptura, uma vez que mesmo que as críticas da minoria estejam certas, a LBI “não atravessou o Rubicão”, “não rompeu programaticamente com a fronteira de classe”. A reali­dade não é bem assim. Nem a cisão entre bolcheviques e mencheviques nem a ruptura entre defensistas e derro­tistas dentro da IV Internacional, importantes divisões do marxismo pareceram essenciais ao primeiro momen­to. No entanto, depois de 15 anos sem tomar para si a tarefa de construir-se dentro do proletariado, de mais de 10 anos de isolamento nacional no plano organizati­vo, encontrando-se hoje com seu pequeno trabalho sin­dical agonizando, a crise da direção cobrou seu preço também para a LBI, levando-a a prostração ceticista.

O próprio Trotsky que no início do século XX não achou justa a ruptura entre bolcheviques e mencheviques russos, avalia, duas semanas antes de seu assassinato, a cisão, desta vez, no interior do SWP estadunidense: “Se tomarmos as diferenças políticas tais como são, pode­mos dizer que não eram suficientes para uma cisão, mas se elas desenvolveram uma tendência para se desviar do proletariado, indo em direção aos círculos pequeno- -burgueses, então essas mesmas diferenças podem ter um valor absolutamente diferente; um peso diferente; se estão ligadas com um grupo social diferente. Este é um ponto importante. (...) Isto é muito característico do intelectual desmoralizado. Vê a guerra, a terrível época que temos pela frente, com perdas, com sacrifícios, e tem medo. Começa a propagar o ceticismo e acredita que é possível unificar o ceticismo com a devoção revolucio­nária. Só podemos desenvolver uma devoção revolu­cionária se estamos certos de que é racional e possível, e não podemos ter tal certeza sem uma teoria operante. Aquele que propaga o ceticismo teórico é um traidor. (Sobre o Partido “Operário”, Leon Trotsky, 7/8/1940).

Retrocedendo em direção ao ceticismo prático a LBI estagnou com o passar dos anos. Restringiu-se a impulsio­nar um recrutamento ocasional, relativamente anárquico e empírico de sua cada vez mais limitada área de influência sindical dispersa pela inexistência sequer de plenárias da Tendência Revolucionária Sindical (TRS) em Fortaleza. Contentou-se em marcar presença testemunhal-crítica ao calendário sindical do bloco de aconselhamento pela es­querda ao lulismo conduzido pelo PSTU. Vale destacar que a crise partidária de julho se agravou após uma importan­te participação sindical da corrente no Conclat de Santos.

Realizamos brilhantes denúncias do caráter buro­cratizado, impotente e liquidacionista, oposto a armar a classe contra a frente popular, da direção da Conlutas. Todavia, a falta de uma nucleação permanente e estru­tural, de formação de quadros revolucionários agravou profundamente o isolamento político que o cerco da frente popular e seus satélites impuseram à LBI. Nossa estéril intervenção na vanguarda de esquerda do movi­mento operário é dirigida a ativistas viciados que há mui­to vivem do aparato sindical a trair a própria categoria.

A modo de conclusão, por uma década e meia reivindi­camos às raposas que não comam as galinhas, recusando-se ao trabalho de ensinar às galinhas as habilidades das águias.

A LBI é vista como um agrupamento que até pode fazer críticas e prognósticos acertados, mas que não se dispõe a lutar de forma consequente pela consciên­cia do proletariado contra o entorpecimento frente-po­pulista a que o conduzem os oportunistas que critica.

Romper com uma orientação que renuncia à disputa pela consciência do proletariado contra o oportunismo e o revisionismo é uma obrigação daqueles que têm como estratégia de vida a militância revolucionária trotskista.

As concepções do trotskismo e do ceticismo são in­conciliáveis. Recordamos uma vez mais o velho bol­chevique diante dos céticos que sob pressões hostis da reação anticomunista germinaram dentro das fileiras da IV Internacional: “Formar-se-á uma verdadeira direção revolucionária, que seja capaz de dirigir o proletaria­do rumo à conquista do poder? A Quarta Internacional responde esta questão afirmativamente, não só através do texto de seu programa, mas também através do fato mesmo de sua existência. Todas as distintas variedades de representantes desiludidos e atemorizados do pseudo-marxismo, atuam, pelo contrário, baseados na suposição de que a bancarrota da direção “reflete” somente a inca­pacidade do proletariado para levar a cabo sua missão revolucionária. Nem todos nossos opositores expressam claramente este pensamento, mas todos eles – ultraes­querdistas, centristas, anarquistas, para não mencionar os stalinistas e os socialdemocratas – descarregam sua res­ponsabilidade pelas derrotas nas costas do proletariado. Nenhum deles assinala sob que condições precisas o pro­letariado será capaz de levar a cabo a virada socialista.

Se admitirmos que é verdade que a causa das derrotas residem nas qualidades sociais do próprio prole­tariado, então a situação da sociedade moderna deverá ser considerada como desesperadora. Sob as condições do capitalismo decadente, o proletariado não cresce nem numericamente e nem culturalmente. Portanto, não existem motivos para esperar que em algum mo­mento se coloque à altura das tarefas revolucionárias.

A questão se apresenta de forma completamente di­ferente para aquele que tem claro o profundo antago­nismo que existe entre a exigência orgânica, profunda e insuperável das massas trabalhadoras para se liber­tarem do sangrento caos capitalista, e o cadáver con­servador, patriótico e completamente burguês da di­reção do movimento operário, que sobrevive por si mesma. Devemos escolher entre uma destas duas con­cepções irreconciliáveis.” (O proletariado e sua di­reção, A URSS na Guerra, Leon Trotsky, 25/09/1939).

De fato, nem todos os céticos expressam clara e for­malmente sua crença de que o proletariado tornou-se in­capaz de seguir uma estratégia revolucionária. No caso da LBI, após a nossa ruptura, a corrente vem tentando dissi­mular sua prostração com condenas literais à prostração, uma elevada dose de ufanismo, um ritmo de redação de textos frenético, acima do habitual e até com a reconsti­tuição urgente da recém liquidada regional de São Paulo. Temos razões de sobra para acreditar que estes gestos te-nham fôlego curto, visando apenas camuflar a nível bas­tante imediato a prostração cristalizada ao longo dos anos.

POR UMA VANGUARDA PROLETÁRIA DA IV INTERNACIONAL

Tomamos a iniciativa de romper com a LBI, cien­tes das pressões voluntaristas, basistas e obreiristas que ameaçam nosso novo curso. Não deixaremos de cometer erros nesta nova empreitada. A princípio nosso programa será inevitavelmente incompleto e confuso. Recorreremos ao estudo da cara experiência dos comunistas do passado para tratar de dissipar tais confusões. Sobretudo, trataremos, juntamente com os setores da classe que conosco militarem, de aprender com os erros. Não há outro modo de ter acesso direto aos trabalhadores e ganhar sua con­fiança mediante táticas corretas sem uma experiência desenvolvida em comum. Só é possível ganhar o proletariado para uma organização revolucionária estreitando os vínculos com suas camadas mais conscientes ainda não deformadas pelos numerosos tentáculos do imenso aparato governista da frente popular, incluindo as Intersindicais e a Conlutas.

Isto significa abandonar a luta nos fóruns destas entidades? De modo algum. Significa que, além disto, é preciso construir oposições de base, comunis­tas, revolucionárias dentro de cada sindicato contra as direções das centrais burocráticas controladas abertamente pelos governistas ou por seus satélites.

Contamos com a enorme vantagem de ter a favor do sucesso da tarefa a ex­trema carência que sofre o proletariado de uma organização política disposta a criar em seu meio uma militância de quadros bolcheviques armados de um programa trotskista. A tarefa do mo­mento é construir uma oposição operária e revolucionária ao governo Lula e ao governo burguês que o substituirá.

Ao cair nas mãos daqueles canalhas que sempre foram acertadamente o alvo das denúncias da LBI este documento corre o risco de provocar alguma perversa satisfação moral. Aconselhamos a estes senhores que desfrutem deste primeiro e curto instante ao máximo. De agora em diante, não poderão mais se aproveitar do fato de que a organi­zação trotskista que os condena estará isolada dos destacamentos de vanguarda da classe operária que sobre vós marcharão na luta contra a colaboração de classes e pela tomada do poder pelos trabalhadores rumo à edificação de um futuro socialista para a humanidade.

Humberto Rodrigues
fundador e ex-membro do Comitê Cen­tral da LBI, integrante do conselho edi­torial do Jornal Luta Operária e da Re­vista Marxismo Revolucionário;

Nádia Silva
ex-militante da LBI e da TRS;

Luiza Freitas
ex-militante da LBI e da TRS;

Pilar Oliveira
ex-militante da LBI e da TRS

Outubro de 2010