TRADUTOR

sábado, 31 de dezembro de 2011

100 ANOS DO SUICÍDIO DE PAUL LAFARGUE E LAURA MARX

Pelo resgate da luta de Paul Lafargue e Laura Marx em defesa do materialismo histórico e dialético!
dO Bolchevique # 8, janeiro de 2012

Em 2011 completam-se 100 anos do suicídio de Paul Lafargue e Laura Marx, genro e filha de Karl. A Liga Comunista presta uma modesta homenagem ao casal revolucionário publicando o texto inédito no Brasil “O método histórico de Marx”, traduzido e enriquecido por explicativas notas de rodapé pelo camarada Yuri Iskhandar e revisado pela LC.
O texto original em francês faz parte da obra “O determinismo econômico de Karl Marx”, editada em 1909 e cujo subtítulo é “A investigação sobre a origem e evolução das idéias de justiça, de bondade, da alma e de Deus”. O texto que será impresso nos próximos dias em forma de livreto se distribui em 4 capítulos:
1. Críticos socialistas;
2) Filosofias deístas e idealista da história;
3) Leis históricas de Vico;
4) O ambiente natural e ambiente artificial ou social.


QUEM FORAM PAUL LAFARGUE E LAURA MARX

Jenny Laura Marx (nascida em 26 de setembro de 1845) foi a segunda filha de Marx e Jenny von Westphalen. Em 1868 ela se casou com Paul, nascido em Santiago de Cuba de família Franco-Caribenha, sob nome de Pablo (16 de junho de 1842), com quem passou a maior parte de sua vida na França, e um período na Inglaterra e Espanha.
Lafargue foi militante, sucessivamente, da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT, a 1ª Internacional) Communard, fundador da Internacional Operária (a 2ª Internacional) e do Partido Socialista Francês. Ao longo desta vida agitada, Paul Lafargue escreveu vários artigos e folhetos para defender entre os trabalhadores a teoria da emancipação, o materialismo histórico e a crítica da economia política marxista, como ele a entendia.
Por sua militância abnegada, Paul converteu o ciúme inicial do sogro em simpatia. Contra a supervalorização das diferenças entre Karl Marx e Paul Lafargue recomendamos a leitura do longo e apaixonado relato do próprio Lafargue entitulado "Recordações pessoais sobre Karl Marx", escrito em 1890, um documento tão magnífico que inspira-nos a colocá-lo no prelo das publicações da LC.
Obviamente, hoje o imperialista PS francês não reivindica a figura de Lafargue, o que nos dá um motivo a mais para celebrarmos por este combatente pela causa da luta revolucionária internacional dos trabalhadores e do comunismo.
Paul e Laura casaram-se em 1868, e se empenharam em várias décadas de trabalho político juntos, traduzindo a obra de Marx para o francês e na divulgação do marxismo na França e na Espanha. Na maior parte de suas vidas, assim como Marx, Laura e Paul foram apoiados financeiramente por Friedrich Engels, que os legou sua herança quando faleceu em 1895.
Em 1871, sob as perseguições políticas desencadeadas com a derrota da Comuna de Paris, o casal é forçado a fugir para a Espanha e se estabelece em Madrid, onde Lafargue é designado como dirigente da Internacional. Ao contrário de outras partes da Europa, onde o marxismo exercia maior influência no pós-Comuna, na Espanha a maioria da Internacional possuía uma forte tendência anarquista de Bakunin. Lafargue tratou de impulsionar as concepções marxistas sob a direção de Engels por meio de artigos assinados no jornal La Emancipación, onde defendia a atuação política dos trabalhadores na luta de classes e a necessidade de criar um partido político da classe trabalhadora contra as concepções anarquistas.
Todavia, a imensa força da Internacional foi conduzida à esterilidade porque os anarquistas rechaçavam qualquer atuação prática para além do mero anarco-sindicalismo e defendiam que não se devia intervir em nenhum processo revolucionário que não se encaminhasse imediatamente para a emancipação completa da classe operária, rechaçavam a participação organizada dos trabalhadores nas eleições burguesas e a luta pela tomada revolucionária do poder pelos trabalhadores se apegando ao fetiche da desaparição instantânea do Estado. Como diz Engels:
“A Espanha é um país muito atrasado industrialmente e por esse fato não se pode falar de uma emancipação imediata e completa da classe operária. Antes que isso possa acontecer, a Espanha terá que passar por etapas prévias de desenvolvimento e deixar para trás uma série de obstáculos. A República oferecia a oportunidade para tornar mais curtas essas etapas para liquidar esses obstáculos. Mas esta oportunidade só podia aproveitar-se por intermédio da intervenção política, ativa, da classe operária. A massa do operariado pensou desse modo e em todas as partes pressionou para que houvesse intervenção nos acontecimentos, para que se aproveitasse a ocasião para agir, em vez de deixar o campo livre para as manobras e para as intrigas. O governo convocou eleições para as Cortes Constituintes. Que posição deveria adotar a Internacional? Os dirigentes bakuninistas estavam mergulhados na maior perplexidade. O prolongar da inatividade política tornava-se cada dia mais ridículo e mais insustentável; os operários queriam fatos. E, por outro lado, os aliancistas [bakuninistas da Aliança Internacional de Democracia Socialista] tinham durante anos seguidos, pregado que não se devia nunca intervir em nenhuma revolução que não fosse encaminhada para a emancipação imediata e completa da classe operária, que o fato de empreender qualquer ação política implicava no reconhecimento do Estado, a grande origem do mal e que, portanto, e, muito especialmente, a participação em qualquer classe em eleições era um crime que merecia a morte. O referido relatório de Madri conta-nos como se saíram desta situação:
‘Os mesmos que desconhecendo os acordos firmados no Congresso Internacional de Haia sobre a ação política das classes trabalhadoras, e rasgando os Estatutos da Internacional, introduziram a divisão, a luta e a desordem no seio da federação espanhola; os mesmos que não vacilaram em nos apresentar aos olhos dos trabalhadores como políticos ambiciosos que, sob o pretexto de colocar no poder a classe operária, lutavam para tomar o poder em benefício próprio; os mesmos homens, esses mesmos que a si próprios se dão o título de anárquicos, autônomos, revolucionários, lançaram-se nesta altura a fazer política, mas a pior das políticas – a política da burguesia; não trabalharam para dar o poder político aos trabalhadores mas para ajudar uma fração da burguesia, composta por aventureiros e ambiciosos, que se denominam republicanos intransigentes.’” (Os bakuninistas em ação, Friedrich Engels, Publicado no jornal “Der Volksstaat” em 3 de Outubro, 2 e 5 de Novembro de 1873).
Esta conduta dos bakuninistas foi publicamente criticada por Lafargue no La Emancipación. Os bakuninistas que se proclamavam “libertários” e arautos defensores da “democracia socialista” trataram de expulsar Lafargue da Federação de Madri por delito de opinião, precipitando a partir de então a ruptura e liquidação da I Internacional.

O DIREITO A PREGUIÇA,
UM LIBELO CONTRA A SUPER-EXPLORAÇÃO DO TRABALHO

Sua obra mais famosa “Pelo direito a preguiça” (1880), caricaturada pelos escritores a soldo da burguesia e, dentre os quais, não poucos “socialistas”, ou adotada por mero hedonismo por anarquistas, converteu-se na verdade na principal elaboração marxista contra o aumento da jornada laboral, em defesa do tempo livre e contra a ideologia burguesa do vício do trabalho incutida no proletariado, ideologia tão preciosa ao capital.
“A classe operária, com a sua boa fé simplista, se deixou doutrinar, porque, com a sua impetuosidade nativa, se precipitou cegamente para o trabalho e para a abstinência, a classe capitalista achou-se condenada à preguiça e ao prazer forçado, à improdutividade e ao super-consumo... Apesar da superprodução de mercadorias, apesar das falsificações industriais, os operários atravancam o mercado em grandes grupos implorando: trabalho! trabalho! A sua superabundância devia obrigá-los a refrear a sua paixão; pelo contrário, ela leva-a ao paroxismo. Mal uma possibilidade de trabalho se apresenta, logo se atiram a ela; então são doze, catorze horas que reclamam para estarem fartos até à saciedade e no dia seguinte ei-los de novo na rua, sem mais nada para alimentarem o seu vicio. Todos os anos, em todas as indústrias, as demissões surgem com a regularidade das estações. Ao super-trabalho perigoso para o organismo sucede-se o repouso absoluto durante dois ou quatro meses; e, não havendo trabalho, não há a ração diária. Uma vez que o vício do trabalho está diabolicamente encavilhado no coração dos operários; uma vez que as suas exigências abafam todos os outros instintos da natureza; uma vez que a quantidade de trabalho exigida pela sociedade é forçosamente limitada pelo consumo e pela abundância de matéria-prima, por que razão devorar em seis meses o trabalho de todo o ano? Porque não distribuí-lo uniformemente por doze meses e forçar todos os operários a contentar-se com seis ou cinco horas por dia, durante o ano, em vez de apanhar indigestões de doze horas durante seis meses? Seguros da sua parte diária de trabalho, os operários já não se invejarão, já não se baterão para arrancarem mutuamente o trabalho das mãos e o pão da boca; então, não esgotados de corpo e de espírito, começarão a praticar as virtudes da preguiça.”
130 anos depois destes escritos, a burguesia seduz enganosamente as classes exploradas com a “possibilidade” ao superconsumo, no entanto, com salários cada vez menores frente as incomensuráveis riquezas que eles próprios produzem, a nossa classe se matam de trabalhar para ter acesso a um ou outro bem da “sociedade de consumo” e por isto, a despeito de todo falatório dos “socialistas” de hoje que ressaltam as regalias e a complexidade do capitalismo moderno e a inutilidade do marxismo para decifrá-lo, as jornadas laborais do século XXI são ironicamente maiores e mais mortificantes do que na época de Lafargue e Laura, sacrificando a força produtiva mais importante, o homem.
Certamente que o direito a preguiça não poderá ser desfrutado pelo proletariado tão logo no dia seguinte após a revolução. Enquanto pesar sobre as cabeças dos revolucionários os riscos da contra-revolução, mais trabalho militante vai nos exigir a luta de classes na marcha para o comunismo. No entanto, os lutadores pela causa do comunismo devem ter, sim, como estratégia, a aspiração pela redução da jornada de trabalho a três horas diárias ou talvez menos diante do avanço tecnológico, o fim do Estado e de toda e qualquer exploração do homem, o alto desenvolvimento das forças produtivas, o pleno acesso a riqueza cultural e material da sociedade permitindo a todos seus membros condições dignas de vida que concedam a cada um segundo suas necessidades.

O MÉTODO HISTÓRICO DE MARX

“O método histórico de Marx” é um texto de Lafargue menos famoso, todavia não, menos importante em sua polêmica contra as concepções burguesas de justiça, de bondade, da alma e de Deus e em defesa do método materialista, histórico e dialético de Marx contra os preconceitos dos “socialistas” e anarquistas ao socialismo científico. Compreendemos que a impressão desta obra é de fundamental importância hoje, depois de a social democracia, o stalinismo em suas diversas variantes e não poucos que se dizem trotskistas terem prostituído o marxismo. A elaboração didática e dinâmica de Lafargue ganha ainda mais vigor se a empregamos como antídoto diante da moda pós-modernista que surfa sobre a reação ideológica anti-comunista das ultimas décadas.
Logo em sua introdução Lafargue delimita-se dos “socialistas” anti-marxistas:
“Marx, por aproximadamente meio século, propôs um novo método de interpretação da História, o qual ele e Engels aplicaram em seus estudos. E compreensível que os historiadores, os sociólogos e os filósofos, temendo que o pensador comunista ‘corrompesse suas consciências’, fazendo-os perder os favores que recebiam da burguesia, resolvessem ignorá-lo. Mas é estranho que alguns socialistas hesitem em usar tal método, por temor de, possivelmente, chegar a conclusões que comprometam suas idéias burguesas, pelas quais são prisioneiros pela ignorância. Em vez de primeiro experimentá-lo, para depois somente julgá-lo – tendo-o experimentado – preferem discutir o valor do método em si, abstratamente, e assim descobrem nele inumeráveis defeitos: o Método Histórico desconhece – dizem – o ideal e sua ação; brutaliza as verdades e os princípios eternos; não leva em conta o indivíduo e seu papel; conduz a um fatalismo econômico que despreza todo esforço humano, etc. O que pensariam estes camaradas de um carpinteiro que, em lugar de trabalhar com seus martelos, serras e com os instrumentos postos a sua disposição, ficasse a buscar minuciosamente as ‘falhas da carpintaria’? Como não existe ferramenta perfeita, teriam muito a criticar. A crítica deixa de ser fútil para converter-se em fecunda só quando acontece depois da experiência, que é melhor que os mais sutis raciocínios, fazendo perceber as imperfeições e ensinado a corrigi-las. O homem serviu-se primeiramente do grosseiro martelo de pedra e o uso deste ensinou-lhe a transformá-lo em mais de uma centena de tipos, diferentes pela matéria prima, peso e forma...
Só com a ação o raciocínio é fecundo no mundo material e intelectual. No princípio foi a ação.
O determinismo econômico é uma nova ferramenta posta por Marx à disposição dos socialistas para estabelecer um pouco de ordem na desordem dos fatos históricos, que os antigos historiadores e filósofos foram incapazes de classificar e explicar. Seus preconceitos de classe e sua estreiteza de espírito deram aos socialistas o monopólio desta ferramenta. Mas, estes últimos, antes de manejá-la, querem convencer-se de que ela é absolutamente perfeita e que pode converter-se na chave de todos os problemas da História; desta maneira podem - ainda que esta tarefa leve toda sua existência - continuar escrevendo artigos e volumes sobre o materialismo histórico, sem avançar em uma só idéia sequer para resolver o problema.”
Longe de criar um manual sistemático e estático passível de ser aplicado a qualquer situação e tempo histórico, o método de Marx possui características dialéticas e isto dificulta sua apreensão para aqueles “socialistas” de academia que não o buscam utilizar para interagir de forma revolucionária com o movimento da luta de classes. Como ressalta Lafargue:
“Marx – e este é um ponto que é pouco realçado – não apresentou seu método como um ‘corpo de doutrinas e axiomas’, teoremas, corolários e lemas, muito menos com aspirações de perfeição; o método é para ele tão somente um instrumento de investigação; o formula em um estilo lapidário e o põe a prova. Não pode ser criticado, portanto, senão colocando em dúvida os resultados que obteve, refutando, por exemplo, sua teoria da luta de classes. E é dela que seus críticos atentam, pois que historiadores e filósofos têm o marxismo como obra ‘impura’, ‘do demônio’, precisamente porque o método conduziu Marx ao descobrimento deste potente motor da História humana.”
Lafargue critca tanto os deístas quanto os idealistas burgueses que passaram a adotar novos deuses como a “Civilização e a Humanidade”. O revolucionário vai mais além e encontra a base da verborragia charlatã burguesa já em vigor como imperialismo a partir dos primeiros anos do século XX, charlatanismo do qual Bush e Obama se utilizam para expandir os negócios da classe que representam:
“A burguesia, confundindo toda a realidade consigo mesma, passa um verniz de ‘Civilização e Humanidade’ em sua ordem social e na sua maneira de tratar os seres humanos. Para exportar sua civilização aos povos ‘bárbaros’, tirando-os de sua grosseira imoralidade e melhorar suas condições de vida, empreende suas expedições coloniais levando sua ‘Civilização e Humanidade’, que se manifestam sob a forma do embrutecimento pelo cristianismo, do envenenamento por álcool e o no despojo e genocídio dos povos indígenas.
Mas equivocam-se aqueles que pensam que somente os ‘bárbaros’ são favorecidos com ‘Civilização e Humanidade’ burguesas, não sendo as mesmas benesses repartidas entre os trabalhadores dos países que domina. Estes benefícios são medidos pela massa de homens, mulheres e crianças despossuídos de todos os bens, condenados ao trabalho forçado, diuturno, ao desemprego periódico, ao alcoolismo, à tuberculose, ao raquitismo, ao crescente número dos índices de delitos e crimes, à multiplicação de hospícios e ao desenvolvimento e ‘aperfeiçoamento’ do sistema carcerário.
Jamais nenhuma classe dominante fez tanto alarde do ‘Ideal’, porque jamais nenhuma outra classe dominante teve tanta necessidade de mascarar sua verborragia idealista. Este charlatanismo ideológico é o mais seguro e eficaz meio de fraude política e econômica. A flagrante contradição entre palavras e fatos não impediu aos historiadores e filósofos tomar as ‘Idéias’ e os ‘Princípios Eternos’ como as únicas forças motrizes das nações dominadas pela burguesia.”
De forma visionária, Lafargue escreve como se estivesse tratando dos vícios da barbárie imperialista atual e como este regime global submete não apenas aos povos oprimidos barbarizados como os afegãos, palestinos, haitianos, iraquianos, líbios, mas às próprias populações trabalhadoras das potências imperialistas. Na mesma perspectiva aponta as bases materiais para as sangrentas guerras do futuro a cinco anos da I Guerra Mundial:
“A grande indústria mecânica, que deve trazer de longe seu combustível e sua matéria prima, e que deve também enviar para longe seus produtos, não pode tolerar a divisão de um país em pequenos Estados autônomos, possuindo cada um suas aduanas, leis, pesos e medidas, moedas, papel moeda, etc.,particulares; ela tem necessidade, pelo contrário, para desenvolver-se, de nações unificadas e centralizadas. Itália e Alemanha não satisfizeram estas necessidades da grande indústria, senão a custa de guerras sangrentas.
Os senhores Thiers e Proudhon, que tinham tantos pontos em comum e que representavam os interesses políticos da pequena indústria, se fizeram ardentes defensores da independência dos Estados Pontifícios e dos príncipes italianos.”
Depois de criticar Proudhon comparando-o a Thiers, o carrasco-açogueiro da Comuna de Paris, como outra variante dos mesmos interesses de classe dos proprietários da “pequena indústria”, Lafargue reivindica criticamente ao pai da Filosofia da História, Vico, contra os historiadores e filósofos burgueses:
“Vico, autor que quase nenhum historiador ou filósofo lê, apesar de passarem de livretos a livretos em seus ‘corsi i ricorsi’ duas ou três sentenças a mais, ademais tão mal interpretadas como repetidas, aquilo que foi formulado na Ciência Nova como leis fundamentais da História.
Vico tem como certa, como uma lei geral do desenvolvimento das sociedades, que todos os povos, qualquer que seja sua origem étnica ou sua situação geográfica, marcham pelos mesmos caminhos históricos, de maneira que a História de um povo qualquer é uma repetição da História de outro povo, cada qual no seu devido grau de desenvolvimento.”
O companheiro da Laura Marx também aponta que o homem não passa incólume às agressões que comete contra a natureza que transforma, criando um meio artificial onde vive:
“O homem não modifica somente por sua indústria o meio natural no qual vive, mas sim cria um completo meio artificial ou social, que o permite, se não evitar completamente a ação da natureza sobre seu organismo, ao menos atenuá-la consideravelmente. Mas este meio artificial exerce, por sua vez, uma ação sobre o homem, tal como o meio natural. O homem, assim como o vegetal e o animal doméstico, sofre, pois, a ação dos meios.”
Exatamente por discordar da evolução histórica mecânica de Vico e por comungar das concepções permanentistas de Marx, Lafargue explica didaticamente a concepção materialista da história, assentando as bases para a lei do desenvolvimento desigual e combinado do desenvolvimento das nações depois aprimorada por Trotsky:
“O homem atribui a direção de suas ações e agitações a um deus, a uma divina inteligência ou às idéias de justiça, progresso, humanidade, etc. Se a marcha da História é inconsciente, porque, como disse Hegel, o homem chega sempre a resultados diferentes dos que busca, é porque até hoje não tomou consciência da causa que o faz atuar e que dirige suas ações...
Marx entende por modo de produção a forma de produzir, e não o que se produz; assim, pois, temos tecidos desde os tempos pré-históricos, e não é senão desde um século que se tece mecanicamente. E o modo mecânico de produção é a característica essencial da indústria moderna. Temos tido a experiência na vida de um exemplo sem precedentes de seu fulminante e irresistível poder para transformar as instituições sociais, econômicas, políticas e jurídicas de uma nação. Sua introdução no Japão elevou este país, no espaço de uma geração, de um Estado feudal-medieval ao estado constitutivo do mundo capitalista e o colocou no plano das potências mundiais.
O modo de produção, de importância relativamente insignificante no meio social selvagem, toma uma importância preponderante e crescente sem cessar pela contínua incorporação à produção das forças naturais a medida que o homem aprenda a conhecê-las. O homem pré-histórico começou esta incorporação servindo-se de pedras como armas e ferramentas.
Os progressos do modo de produção são relativamente rápidos, não somente porque a produção ocupa uma massa enorme de homens, mas sim porque, incendiando as “fúrias do interesse privado”, põe em jogo os três vícios, que, para Vico, são as forças motrizes da História: a dureza do coração, a avareza e a ambição.
Os progressos do modo de produção se deram tão rápido nos últimos séculos que os homens interessados na produção devem modificar constantemente as peças correspondentes do meio social; as resistências que se encontram dão lugar a incessantes conflitos econômicos e políticos; assim, pois, se se quer descobrir as causas primeiras dos movimentos históricos, é necessário buscá-las no modo de produção e na vida material, os quais, como disse Marx, condicionam o desenvolvimento geral da vida social, política e intelectual.
O determinismo econômico de Marx libera a lei da unidade do desenvolvimento histórico de Vico de seu caráter predeterminado, que supõe que as fases históricas de um povo, assim como as fases embrionárias de um ser, como pensava Geoffroy Saint Hilaire, estão indissoluvelmente ligadas por sua natureza íntima e estão determinadas por uma incalculável ação de uma força interna, de uma ‘força evolutiva’, a qual os conduziria por rumos preestabelecidos até fins previamente determinados, de onde se concluiria, como conseqüência, que todos os povos deveriam progredir sempre e, ademais, em igual velocidade e por um mesmo caminho. A lei da unidade do desenvolvimento, assim concebida, não se verificaria na história de nenhum povo.”
Ao criticar Vico aqui, o revolucionário cubano-francês já desmascarava a mais de um século as ilusões desenvolvimentistas que hoje, sobretudo depois da divulgação de que o PIB do Brasil ultrapassou ao da Inglaterra, situando o país no 6º lugar do ranking mundial, são disseminadas pelo governo do PT e seus asseclas, de que nações e povos subordinados pudessem seguir o mesmo destino das metrópoles sem romper com a cadeia de dominação imperialista e sem a revolução social.
De forma embrionária, Lafargue atualiza Marx para a época imperialista, atualização que Trotsky vem dar um formato mais aperfeiçoado 20 anos depois em sua obra “O Marxismo em Nosso Tempo – O Pensamento Vivo de Karl Marx”:
“'O país mais desenvolvido industrialmente — escreveu Marx no prefácio da primeira edição de seu Capital — não faz mais que mostrar em si ao de menor desenvolvimento a imagem de seu próprio futuro’. Este pensamento não pode ser entendido literalmente em hipótese alguma. O crescimento das forças produtivas e o aprofundamento das inconsistências sociais são indubitavelmente o lote que corresponde a todos os países que tomaram o caminho da evolução burguesa. No entanto, a desproporção nos “tempos” e medidas, que sempre se dá na evolução da humanidade, não somente se faz especialmente aguda sob o capitalismo, como também dá origem à completa interdependência da subordinação, da exploração e da opressão entre os países de tipo econômico diferente.” (Leon Trotsky, 18 de Abril de 1939).

SUICÍDIO E OTIMISMO REVOLUCIONÁRIO

Em 1911, o casal idoso Paul Lafargue e Laura Marx suicidou-se, tendo decidido que não tinha mais nada para dar ao movimento ao qual dedicaram a vida.

Lenin foi um dos oradores de seu funeral, em Paris. Krupskaya disse que Lenin falou:
"Se a pessoa não pode trabalhar para o partido por mais tempo, é preciso ser capaz de olhar para a verdade na cara e morrer como o Lafargue". (citado por Joseph Hansen, in Introdução à edição de 1970 da obra Minha Vida de Leon Trotsky).
A decisão do suicídio nada tinha a ver com uma fraqueza ou covardia. Ela se enquadra no que Marx definiria como causa do suicídio uma renúncia do indivíduo a uma existência apartada do gênero humano, no caso do casal revolucionário, pelo avanço da decrepitude física decorrente da idade avançada. Lafargue não deixou sombra de dúvida de seu otimismo revolucionário no momento da morte, escrevendo a seguinte nota de suicídio:
“Saudável de corpo e espírito, me entrego à morte antes que a implacável velhice, que me tirou os prazeres e alegrias da existência um atrás do outro, e roubou minhas forças físicas e intelectuais paralise minhas energias e acabe com minha vontade, convertendo-me em um fardo para mim e para os demais. Já há alguns anos prometi não passar dos 70 e defini a época do ano para minha partida desta vida, preparando o modo de executar esta minha decisão: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico. Morro com a suprema alegria e a certeza de que muito em breve triunfará a causa que eu dei a mim mesmo por 45 anos. Viva o comunismo! Viva a Internacional!”