TRADUTOR

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

BOLSONARO

Um neonazista na presidência 
Organizar a resistência e a autodefesa dos trabalhadores e oprimidos, negros, mulheres, lgbts!


Brasil, 29 de Outubro de 2018


A “Nova República”, fundada sob a Constituição de 1988, morreu. Nasce um novo regime político. A legislação (fiscal, trabalhista, garantias fundamentais constitucionais) do país foi profundamente modificada após o Golpe de 2016. O regime de exceção do governo Temer dará lugar a um outro, de tipo neonazista, e de maior terrorismo estatal contra a população trabalhadora. Foi isso que os primeiros discursos contemporizadores do novo tirano tentaram negar, querendo fazer parecer que seu governo será de continuidade democrática.

Em 2014, a escalada golpista no Brasil começou a ser percebida por muitos, a partir da queda do avião do presidenciável Eduardo Campos. O estranho “acidente” matou o candidato do PSB e limpou o terreno eleitoral para quase permitir a eleição do gangster Aécio Neves, do PSDB, então, o principal partido da oposição burguesa ao governo do PT. A eleição de Dilma foi contestada, ao que se seguiu uma pressão da direita que foi respondida com capitulação, fragilização e desmoralização do governo do PT perante suas bases, processo que culminou no Impeachment, um golpe de Estado parlamentar que por essa via possibilitou a expropriação dos direitos históricos do povo.

Em dois anos (2016-2018), o governo golpista de Temer, a espionagem da NSA e da CIA, com a cumplicidade das Forças Armadas brasileiras, e a operação de intervenção judicial montada nos EUA, a operação Lava-Jato, perseguiu ao PT e preparou o terreno para finalmente a instalação de um governo anti-petista.

Mas, a perseguição provocou o efeito contrário e através de uma reação popular passiva, mas crescente, a popularidade de Lula disparou. O povo expropriado pelo regime de exceção de Temer, o mais impopular da história por suas contrarreforma, identificou-se com o Lula, perseguido, preso e banido, que realizou em seus governos havia realizado reformas populares. O fenômeno se expressou em todas as pesquisas de intenção de voto desde 2017 e o dirigente petista ameaçava ganhar ainda no primeiro turno de 2018.

O regime golpista precisou dobrar a aposta. Mais manobras judiciais foram desencadeadas, além das campanhas de calúnias e difamações, intimidações, violência, ataques às liberdades de expressão, intervenção militar no Rio de Janeiro e assassinatos como o de Marielle Franco, parlamentar do PSOL. O massacre midiático realizado diariamente pelos grandes meios de comunicações tradicionais burgueses contra o PT deu um salto de qualidade e preparou o terreno da transferência de protagonismo político da direita (PSDB-DEM-MDB) para a extrema direita.

Mas o que exerceu maior pressão sobre essas eleições foram os aparatos de comunicação não convencionais. Essas eleições foram influenciadas mais pelas redes sociais que pela TV e rádio. Todos os métodos tradicionais de manipulação das eleições pelo poder econômico do capital, somados a perseguição política anti-PT se mostraram insuficientes, sendo necessário acentuar as características fraudulentas da eleição.

O imperialismo se dividiu. O setor mais ligado ao capital financeiro e as bolsas, politicamente mais vinculado aos Democratas do EUA, preferiu que o Brasil fosse governado pela direita tradicional, o PSDB, que tinha como candidato nessas eleições o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. The Economist e grande parte da mídia mundial, vinculados ao capital financeiro atlantista condenou Bolsonaro. Isso confundiu muito a esquerda brasileira que acredita que o imperialismo é um todo homogêneo. Mas, a Casa Branca, ocupada por um outsider vinculado as corporações do complexo militar-industrial-energético dos EUA, como os irmãos Koch, tinha planos mais radicais para o Brasil: apropriar-se do petróleo e realizar uma nova ofensiva no continente latino americano, onde o Brasil ocupará uma função central na futura "cruzada anticomunista" contra, primeiramente, a Venezuela e, em seguida, Bolívia, Nicarágua e Cuba.

A transformação de um parlamentar marginal da extrema direita brasileira em presidente populista só foi possível porque ele foi projetado através de uma imensa campanha histérica de pavor contra o PT, acusando o partido de Lula não apenas de ser corrupto, mas de ser uma ameaça comunista contra a moral, os bons costumes e a propriedade privada. Uma acusação comprovadamente absurda pela própria experiência dos quatro mandatos capitalistas do PT em que nunca foi cogitada a reforma agrária ou a aprovação do direito ao aborto e quando várias privatizações foram realizadas. Mas, o irracionalismo assumiu o controle e a cruzada foi intensamente incutida nos setores mais reacionários da classe média, através da manipulação dos evangélicos neopentecostais sobre as massas proletárias que lideram e, principalmente, por uma propaganda viabilizada a partir de um grande volume financeiro de capitalistas comprometidos com os interesses dos EUA e Israel, com interesse em destruir os direitos mais fundamentais em troca da maximização da exploração.

A ala dos golpistas mais decididos a fazer campanha contra o PT reuniu um fundo de pelo menos 12 milhões de reais, montando a maior operação de "caixa dois"  (dinheiro para campanha não declarado oficialmente pelo candidato) da história. Curiosamente, esse é o maior crime imputado ao PT pela operação judicial Lava Jato. Esse fundo se destinou a contratar empresas de marketing e estratégia digital para fazer disparos em massa de notícias pelo whatsapp através de robôs. Pela primeira vez na história, os aparatos da guerra híbrida foram utilizados em larga escala no Brasil. O grande capital financiou bombardeios de Fake News as redes sociais, uma propaganda política psicológica infinitamente mais potentes que os que dispunha Goebbles, ministro da propaganda nazista. Atribui-se a Goebbles a frase “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Mesmo desmentidas, mentiras como a do "kit gay" (um suposto pacote de livros e vídeos criados pelo governo do PT para transformar crianças em homosexuais) e de que Haddad, o candidato do PT, era um estuprador de crianças bombardearam eleitores indecisos.

Essa técnica foi utilizada trilhões de vezes durante a campanha até "se tornar verdade", não com rádio e jornal impresso como nas décadas de 20 e 30 do século XX, mas com uma tecnologia de comunicação atualizada e turbinada dos algoritmos do facebook e do whatsapp contemporâneos. Técnicas de persuasão, já empregadas nas eleições do Brexit e de Trump, que apelam mais ao inconsciente que ao consciente das massas foram montadas pelos think thanks da reação imperialista como Roger Stone e Steve Bannon foram agora utilizadas nas eleições brasileiras. Como revela o próprio Bannon:

Se não fosse pelo Facebook, Twitter e outras mídias sociais, teria sido cem vezes mais difícil para esse populismo ascender, porque não conseguiríamos ultrapassar a barreira do aparato da mídia. Trump conseguiu fazer isso, Salvini e Bolsonaro também. (Folha de São Paulo, 29/10).
Toda a manipulação anterior foi realizada em combinação com esse esquema, permitindo assim que um novo regime autoritário fosse legitimado pelas urnas.

Teremos que nos reorganizar para construir uma verdadeira resistência ao projeto neonazista. Optamos por usar a terminologia neonazista e não neofascista porque o nazismo é racista, um elemento preponderante na herança da luta de classes no Brasil. Essa resistência precisa aprender a lutar também a híbrida contra o imperialismo e o capitalismo, caminho começado por organizações como o Wikileaks.

Precisamos alcançar e organizar os 47 milhões que votaram pelo candidato do PT (ele venceu em mais cidades que Bolsonaro, 2.810 contra 2.760). Haddad venceu em 98% das cidades mais pobres. Bolsonaro venceu em 97% das cidades mais ricas. Uma verdadeira divisão de classes nas eleições. O que desmoraliza mais ainda os esquerdistas que ficaram neutros, apoiando a anulação do voto ou a abstenção. Precisamos cooptar para a resistência também os que não escolheram ninguém. E por fim, estabeleçamos pontes com os setores mais estupidificados da população explorada e oprimida que enganados pelo bombardeio de mentiras, despertados em seu inconsciente bárbaro pela propaganda neonazista, votaram em seu algoz. Esses mesmos eleitores, mais cedo do que pensamos, vão se arrepender de sua escolha, graças principalmente a ação do novo regime contra eles. Esses trabalhadores precisam ser recrutados para derrotarmos ao neonazismo militarista neoliberal e teocrático, representante do novo projeto de colonização imperialista para o Brasil.

A resistência impreterivelmente assumirá a cara da liberdade, da igualdade, do desenvolvimento e da justiça social que a burguesia foi incapaz de defender e que só a classe trabalhadora pode reconquistar e defender. Por isso, não podemos contar com os 'aliados' burgueses que na melhor das hipóteses e apenas formalmente se opõem a onda Bolsonazi.

Todavia, enquanto a serpente do neonazismo chocou e pariu o seu ovo, enquanto o próprio candidato neonazista repetia que estava preparando uma guerra civil contra os trabalhadores e a esquerda, mais uma vez o PT buscava a conciliação, retirou a imagem de Lula da campanha no segundo turno e orientou a militância a não citar o nome de Bolsonaro. Assim, Haddad que havia evoluído de 4% para 30% no primeiro turno, estancou no começo do segundo turno das eleições. Foi só na última semana de outubro que, com muita vacilação, a campanha voltou a crescer quando a propaganda eleitoral do PT começou a criticar explicitamente (ainda que com timidez) ao adversário Bolsonaro, indetificando-o com a tortura e a ditadura militar. Mas, ao contário da FCT e alguns poucos setores da esquerda, a campanha política bem comportada de Haddad não alertou aos trabalhadores contra esse novo golpe. Em nenhum momento o PT e a CUT, que dirigem o movimento de massas, prepararam a classe trabalhadora para a guerra civil que se seguirá. Pelo contrário, rebaixaram o programa e Haddad imediatamente aceitou a derrota sem qualquer denúncia de que o resultado havia sido fruto de uma manipulação imensa das eleições e não do respeito a vontade popular. Haddad reconheceu o resultado como se as eleições não tivessem sido as mais fraudulentas, sujas e belicosas da história do país. Como se o candidato da maioria, Lula, não tivesse preso e se uma massa de 3 milhões de votos também não tivesse sido caçada, como se os agentes do imperialismo não tivessem manipulado tudo, “legal” e ilegalmente, como se os generais do exército não tivessem ameaçado não reconhecer os resultados e não tivessem chantageado o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.

Houve uma grande derrota da esquerda e dos trabalhadores para o setor mais truculento da burguesia, mas uma derrota ainda no terreno controlado pelo inimigo. A luta continua e agora muda de forma e conteúdo. Para os que acompanharam a evolução política das massas por dentro da campanha da esquerda, começa o terceiro turno, nos comitês populares, na reorganização dos explorados e oprimidos, na superação dos vícios burocráticos do período da conciliação de classes. Nos manifestaremos coletivamente, mas nos preservando individualmente.

Há um lado pedagógico em tudo isso. A partir de agora, todo direito precisará ser assegurado pela luta. As novas gerações não poderão mais usufruir de direitos conquistados pelas gerações de explorados anteriores, desde a escravidão, e terão que lutar para defender suas condições de trabalho e suas vidas. Aprenderão à fórceps, mas ainda terão a vantagem de que o caminho já foi aberto pelos lutadores sociais anteriores.

Não será fácil, mas teremos que aprender a fazer a resistência coletiva e de massas e combater com coragem a perseguição e violência que veremos nos próximos dias. Nossos eixos precisam ser a frente única e a construção de comitês populares e de autodefesa dessa frente única em todos os locais onde a luta se apresentar. Estaremos juntos na luta por nossos direitos civis, político, democrático, trabalhista e sociais.

Alertas e juntos, venceremos camaradas!