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terça-feira, 22 de setembro de 2015

MÚSICA - 10 ANOS SEM BEZERRA

Bezerra da Silva, o cantor da moral proletária
Levi Sotto e Humberto Rodrigues

Há dez anos falecia Bezerra da Silva, o grande sambista que deu voz aos trabalhadores dos morros e favelas. Bezerra nasceu em Pernambuco, em 1927. Aos 15 anos de idade, em busca do pai e fugindo da pobreza, foi para o Rio de Janeiro clandestinamente em um navio, apenas com a roupa do corpo. Encontrou o pai mas com ele desentendeu-se. Foi trabalhar na construção civil, como pintor de parede, foi um sem teto que morava nas obras em que trabalhava, na zona central do Rio, por sete anos. Foi preso muitas vezes pela polícia e acabou desempregado em 1954. Enamorado de uma “dona” foi morar no morro do Cantagalo, onde ingressou na bateria do bloco carnavalesco Unidos do Cantagalo.

Uma de suas primeiras parcerias foi com Jackson do Pandeiro, adotando inicialmente o coco como ritmo musical. Mas foi a partir de 1977, como sambista de Partido Alto, que Bezerra encontrou-se e deu voz como nenhum outro no Brasil aos compositores proletários, gente simples, mecânicos, pedreiros, presidiários, eletricistas, cobradores de ônibus, que através de seus sambas defendiam “o povo humilde da colina, que mora lá em cima, vivendo uma vida de cão, abandonado e covardemente injustiçado” pela mídia que “diz que lá só mora ladrão”, pela justiça dos ricos e a repressão da polícia que “dá um pau no favelado e depois mete na cadeia” enquanto protegem e representam “a ira de uma elite famigerada que também tem instinto de traíra”, uma elite de “safados, ladrão que usa o colarinho branco, rouba o dinheiro do povo..., mora no asfalto, com mordomia e com toda regalia que aquele dinheiro pode dar” (“O povo da colina”, de Walmir da Purificação, Tião Miranda e Roxinho).