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sábado, 9 de abril de 2011

A QUESTÃO LÍBIA E O REVISIONISMO DA CMI

Liga Comunista combate posições de Alan Woods e da CMI na USP

No dia 06 de abril, a corrente Esquerda Marxista do PT (EMPT), seção brasileira da Corrente Marxista Internacional (CMI) promoveu uma Conferência com Alan Woods, na Universidade de São Paulo, com o tema “A revolução dos povos árabes e a crise capitalista mundial”.

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SOBRE A CMI E A EMPT

A CMI foi fundada por Woods e Ted Grant, depois que ambos foram expulsos do “The Militant” inglês, em 1991, pela maioria dirigida por Peter Taaffe (que logo depois viria a fundar o Committee for a Workers' International, CWI, ao qual é filiado a corrente LSR, do PSOL).

O “Militant” foi uma grande corrente de esquerda do Labour Party (laborismo) até a expulsão de seus principais dirigentes em 1982. Depois de décadas de entrismo sem princípios no laborismo e quase dez anos após a expulsão do “Militant”, a tendência majoritária de Taaffe defendeu a criação de um partido independente e a fração de Woods e Grant reivindicava a continuidade do entrismo. Quando o Labour Party negou-se a lutar contra o poll-tax, imposto por cabeça, que o Partido Conservador queria obrigar a população trabalhadora a pagar, Grant e Woods se opuseram a denunciar o laborismo, considerando “sectarismo” desmascarar a política antioperária e colaboracionista deste partido imperialista para os trabalhadores de seu país.

O CMI é a maior expressão atual do pablismo. Michel Pablo foi o dirigente da IV Internacional que defendeu a liquidação da tendência internacional do marxismo fundada por Trotsky, realizando um entrismo estratégico nos stalinistas Partidos Comunistas. Os seguidores do pablismo estenderam esta concepção liquidacionista do trotskismo para fazer entrismo no laborismo, na social democracia e no nacionalismo burguês. Seguindo esta regra, na Inglaterra a CMI permanece dentro do imperialista Labour Party, no Brasil dentro do PT, no Paquistão dentro do PPP e, na Venezuela, do PSUV. Woods se orgulha de ser o conselheiro “trotskista” de Chavez e sua V Internacional.

A CMI, assim como o CWI, reivindicam como herança programática do “The Militant”, a política em favor de sua própria burguesia imperialista contra a nação oprimida Argentina na guerra das Malvinas; contra a autodeterminação da Irlanda do Norte, além da defesa do Estado nazi-sionista de Israel contra a luta pela emancipação nacional palestina.

Em 2010, a maioria das seções da CMI da Espanha, Venezuela e Colômbia romperam e criaram a Corrente Marxista Revolucionária, ficando com a maior parte dos aparatos partidários, particularmente nas duas primeiras seções e realizando ainda mais culto ao personalismo chavista. Na Espanha, a Fundação Frederico Engels e o Sindicato dos Estudantes ficaram com a ruptura.

A Esquerda Marxista do PT nasceu de uma ruptura com a corrente lambertista O Trabalho e ligou-se à CMI, convertendo-se em uma corrente chavista. A EMPT administra desde 2002 algumas fábricas ocupadas no Brasil, Todavia, alí não existe controle operário da produção, mas uma administração capitalista “alternativa”, onde a direção da EMPT, que gerencia as fábricas, prioriza o pagamento de agiotas, com quem se associa, e atrasa os salários dos operários. A EMPT apoiou Lula e Dilma sem sequer lançar candidatura própria da corrente para disputar a indicação presidenciável do partido contra a candidata das empreiteiras e a “mãe do PAC”.

O MITO DA “INSURREIÇÃO POPULAR” NA LÍBIA

A atividade deste dia 06 foi realizada na USP e fez parte de um giro internacional da corrente de Woods para surfar na “onda revolucionária nos países árabes” (da brochura que A .Woods veio lançar em suas Conferências, “Tremores Revolucionários: uma análise marxista da atual onda revolucionária nos países árabes”). A LC considera que não existe uma “onda revolucionária” nem “processos revolucionários”, mas revoltas populares que pela ausência da classe operária organizada e menos ainda de partidos revolucionários na condução destes processos, são logo desviados pelo imperialismo e seus agentes fantoches. Estes processos vem sendo controlados pelos remanescentes dos regimes déspotas destituídos nos casos da Tunísia e Egito e pela oposição burguesa, para aprofundar a política de expansão do capital financeiro, com o aumento da exploração sobre os trabalhadores e das riquezas energéticas e naturais desta região.

Não estão ocorrendo “revoluções” nem na Tunísia nem no Egito, mas a substituição controlada pelo imperialismo de governos títeres desgastados, por outros governos burgueses supostamente mais democráticos. A situação da Líbia é distinta dos dois primeiros países porque alí se trata, desde sua origem, de uma mobilização golpista armada pela CIA para substituir o regime de Trípoli por outro governo que realize uma nova e mais profunda partilha do petróleo do país.

Contestando a tese da CMI, compartilhada pela quase totalidade da esquerda mundial, que defende a mobilização golpista patrocinada pela CIA na Líbia, uma militante da Liga Comunista interpelou Woods:

“Eu sou estudante do curso de História da USP e sou membro da Liga Comunista, e queria contribuir com o debate fazendo uma polêmica com a CMI e com o Alan Woods. Eu queria lembrar que em 2002 a gente assistiu a um golpe de Estado na Venezuela, que foi organizado pela CIA e teve o apoio da burguesia venezuelana. Neste momento, neste contexto, os marxistas internacionalistas não poderiam ter outra posição senão a de combater este golpe imperialista e fazer uma frente única militar com o Chavez para expulsar o imperialismo da Venezuela. Hoje o imperialismo se aproveita das revoltas que estão acontecendo no Egito e na Tunísia pra justificar o que ele está fazendo na Líbia. Ele está armando seus agentes dentro da Líbia para tentar recolonizar, com uma intenção clara de recolonizar o país que é o terceiro maior produtor de petróleo da África. E hoje, a CMI, assim como o PSOL e o PSTU e grande parte da esquerda se coloca em apoio a estes golpistas internos, apoiados pelo imperialismo, na Líbia e chamam isto de "revolução". O que eles chamam de "revolução" são estes golpistas que reclamam pelo bombardeio da OTAN sobre o seu próprio povo. Nós sabemos que o Gadafi não merece nenhuma confiança nossa, é um governo burguês e que nós temos todos os motivos do mundo para odiá-lo como ditador. Mas em uma guerra a gente tem que tomar uma posição, tem que escolher, ou a gente vai apoiar o imperialismo que está invadindo a Líbia de uma forma arbitrária, bombardeando civis com o pretexto de fazer uma "ajuda humanitária", talvez a mesma "ajuda humanitária" que fez em Guantânamo, no Iraque e no Afeganistão e em outros países. Então, a nossa posição é estabelecer neste momento, para expulsar o imperialismo que está armando seus agentes dentro da Líbia, é fazer uma frente única militar com Gadafi, expulsar o imperialismo e depois acertar as contas com o ditador Gadafi. Então, esta é a posição que a LC coloca e coloca também que a derrota do imperialismo na Líbia vai favorecer também a que consigamos derrotar o seus governos no Egito, na Tunísia e em todos os países.”

Esta intervenção da LC desmascarou Woods em sua própria Conferência. O dirigente da CMI respondeu argumentando:

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“Sobre a questão da Líbia há muita confusão sobre este tema. Ponto número um: Na Líbia ocorreu uma insurreição popular. Temos que apoiar isto, sim ou não? Eu digo sim! 100% sim! É verdade que existem outros elementos, há elementos dúbios aí, Inclusive o ex-ministro de Gadafi e os demais. Mas não podemos apoiar Gadafi sob nenhuma condição. Eu tenho uma excelente relação com o presidente Chavez, mas sobre este tema eu tenho total desacordo com ele.”

O que Woods chama de “insurreição popular” a qual apoia 100% não passa de um complô armado pela CIA que, como afirmou nossa camarada em sua intervenção, aproveitou-se dos levantes populares da região para aplicar o golpe em seu adversário Gadafi a fim de recolonizar o país. Em segundo lugar, o único elemento que quer parecer dúbio entre uma nação oprimida e uma ofensiva imperialista é o próprio Woods, pois não há elementos dúbios entre os trânsfugas do alto comando do exercito, do corpo diplomático e da magistratura líbia com empresários, multinacionais e chefes tribais candidatos a fantoches do imperialismo apoiados em setores de classe média da região mais rica do país, setores tão reacionários quanto os “esquálidos” venezuelanos ou os fascistas secessionistas bolivianos.

A maior prova de que os “rebeldes” líbios não passam de carniceiros agentes do imperialismo é o fato de invocarem o bombardeio da OTAN contra o seu próprio povo, como fizeram os colaboracionistas em todos os momentos da luta de classes desde Thiers, na Comuna de Paris (1871), até hoje.

A cada dia que passa fica mais evidente que os agentes do imperialismo não só são meros abre-alas, aríetes para a intervenção multinacional no país, como se declaram abertamente racistas e xenófobos, inimigos da classe operária negra subsaariana que compõem uma imensa massa de trabalhadores na Líbia, perseguindo a todos em nome da caçada aos “mercenários de Gadafi” para de fato desvalorizar ainda mais a força de trabalho no país, preparando-o para a superexploração da nova era de extrema rapina imperialista.

Depois que o caudilho venezuelano, a serviço da boliburguesia venezuelana e do capital multinacional, reprimiu de maneira brutal os operários de seu país em luta na Fábrica de Sanitários Maracay, na Sidor e na Mitsubich, Woods estabeleceu “uma excelente relação com o presidente Chavez”. Mas quando Gadafi reprime aos golpistas da CIA, o dirigente da CMI declara que não apoia Gadafi sob nenhuma condição, enquanto apóia Chavez em tudo mais, à exceção da defesa vacilante que o caudilho venezuelano faz do caudilho líbio. Discordamos da posição de Chavez e Castro porque “apesar de se oporem à intervenção militar imperialista no país africano, propõem ao regime de Trípoli várias medidas e fóruns diplomáticos de capitulação e renuncia à soberania do país. Tais medidas, se levadas a termo, na melhor das hipóteses, manteriam temporariamente o atual governo no poder ao custo de maiores concessões politicas e econômicas do que as que já fez Gadafi nos últimos oito anos e que, certamente provocariam enormes perdas aos trabalhadores na Líbia em favor de uma nova partilha imperialista da nação árabe tal como acabou de ser promovida no Sudão.” (ESPECIAL ÁFRICA DO NORTE E ORIENTE MÉDIO 4/4, “SU, CMI, L5I, LIT, UIT, PO, FT, FLTI: finalmente as “Internacionais” revisionistas se ‘reunificam’ em Bengasi”, dO Bolchevique #4, abril/2011). Mas, temos que reconhecê-lo, neste assunto, as posições do “conselheiro trotskista britânico” são muito mais servis ao imperialismo do que as do aconselhado mandatário venezuelano.

CMI E EMPT SÃO CRIAÇÕES DO DOMESTICADO “TROTSKISMO” LABORISTA E PETISTA

A Woods se aplica perfeitamente a crítica que uma vez Trotsky fizera da submissa direção do movimento operário britânico:

“Os criadores de pombos ingleses conseguiram, por seleção artificial, criar uma variedade de bicos cada vez mais curtos. Mas chegou o momento em que o bico do pombo pintinho se tornou tão curto que o pobre animal não consegue romper o ovo e morre na casca, vítima da abstenção forçada a toda a violência, comprometendo até o progresso futuro da variedade de bicos curtos. Se nossa memória não falha, Macdonald pode ler este exemplo em Darwin. Seguindo o caminho, tão agradável a Macdonald, das analogias com o mundo orgânico, se pode dizer que a habilidade política da burguesia inglesa consiste em encurtar o bico revolucionário do proletariado a fim de não permitir que ele fure a casca do Estado capitalista. O bico do proletariado é seu partido. Tomando em conta a Macdonald, Thomas, Sr e Sra. Snowden, é preciso reconhecer que o trabalho de seleção dos bicos curtos e das cabeças brandas tem sido um êxito brilhante para a burguesia inglesa, já que estes senhores e essa dama não são bons para perfurar a casca do capitalismo nem são bons para nada”
(Sobre certas particularidades dos dirigentes operários ingleses, em "Aonde vai a Inglaterra?", 03/05/1926).

Ainda que não depositemos a menor confiança que Gadafi vá lutar de forma consequente para derrotar a ofensiva da OTAN e dos EUA, ainda bem que a luta anti-imperialista na Líbia não depende dos conselhos de Woods. Se dependesse, ela seguramente morreria dentro da casca, como morreria também a luta pela emancipação nacional irlandesa e da palestina.

Apesar das aparentes diferenças políticas, em essência, as organizações EMPT, DS e OT no PT, CST e LSR no PSOL, e PSTU compartilham dos mesmos vícios tradeunistas devido a habilidade da burguesia brasileira de encurtar o bico revolucionário do trotskismo nacional, através da escola laborista do PT.

POR TRÁS DO “NÃO À INTERVENÇÃO IMPERIALISTA”, 100% DE APOIO AOS GOLPISTAS QUE REIVINDICAM A INTERVENÇÃO DA OTAN

No balanço que realizou sobre a Conferência, a EMPT apresenta do seguinte modo a intervenção da companheira da LC: “O discurso foi seguido por uma sessão de perguntas e debate, durante o qual alguns sectários descontentes tentaram, sem sucesso, provocar o palestrante sobre o tema da Líbia mais uma vez, buscando ligar o posicionamento de Chávez com a posição da Corrente Marxista Internacional... Os sectários haviam declarado que a posição correta para os marxistas deveria ser a de fazer uma frente única militar com Gadafi contra os imperialistas.” (Alan Woods fala sobre a crise capitalista mundial e a revolução árabe na USP, site da EMPT, 07/04/2011). http://www.marxismo.org.br/index.php?pg=artigos_detalhar&artigo=735; http://www.marxist.com/brazil-alan-woods-university-sao-paulo.htm.

No desespero de não se contrapor à opinião pública imperialista anti-Gadafi, a corrente de Woods trata de repudiar qualquer suspeita de tentarem identificar suas posições incondionalmente anti-Gadafistas com as de Chavez sobre a Líbia e mente de forma descarada, acusando a Liga Comunista de “buscar ligar o posicionamento de Chavez com a da CMI”. Na verdade, como fica evidente no vídeo, o que a EMPT acusa de “provocação” foi o fato da LC ter desmascarado que por trás do “não À intervenção imperialista na Líbia” de Woods está o seu apoio aos golpistas que reivindicam a intervenção imperialista.

Fica evidente pelo balanço feito pela EMPT quem são os verdadeiros sectários no debate, quem usa métodos burocráticos contra seus adversários esquivando-se sequer de nominá-los. Todavia, tomamos como elogio sermos acusados de sectários pela corrente que por décadas liquidou o trotskismo na Inglaterra na condição de ala esquerda do imperialismo laborista, a corrente oportunista que já há 20 anos considerava “sectário” denunciar o saque cometido pela sua própria burguesia imperialista sobre a população trabalhadora inglesa. Se nós da Liga Comunista somos sectários, a “internacional” de Woods é algo estranho ao marxismo revolucionário e nós da LC buscamos criar um Partido Mundial dos Trabalhadores que em nada se assemelhe a esta prostituição do marxismo a serviço do imperialismo.